Black View - 05.09.2014 Diego Wanks


Sempre ouvi falar do Diego Wanks por amigos em comum. “Anda muito”, “ele é foda”, “o cara não é reconhecido”… Ouvi bastante mesmo. Quando conheci o Didi ao vivo, vi que era tudo verdade. Ele estava dando um rolê com os amigos: Murilo Romão, Apelão e outros caras. E vendo ele andar junto com alguns dos melhores profissionais do Brasil, você entende porque falam tanto dele.

 

Já que ele nunca teve entrevista e ainda está terminando a vídeo parte, nós tivemos que tomar vergonha na cara e apresentar ao mundão esse amador que anda pra caralho e, mais importante, tem personalidade. A entrevista ficou gigante, mas eu fiquei com dó de cortar mais porque acho importante todo mundo ler cada linha do que tá aqui embaixo. Pra quem gosta, tá aí um prato cheio, com boas ideias e manobras absurdas. Quem não gosta de se aprofundar no skate, pode voltar pro YouTube.

 

O Didi é skate puro.

 

texto e entrevista por Felipe Minozzi (Fel) / fotos por Caetano Oliveira e Marcelo Mug

 

Diego Wanks

Foto: Caetano Oliveira

 

Se quiser agradecer alguém, já faz isso agora porque eu acho um saco essa parte. Não aguento mais ver entrevista terminando com isso.

Só quero agradecer aos meus amigos, com quem eu ando todo dia, que estão no rolê… Minha mãe, minha família e já era. Todo mundo que anda comigo e quem tá perdendo tempo pra ler isso aqui.

 

Por que Wanks? Você sabe que wanks em inglês é punheta, né? Tem alguma coisa a ver?

Tô ligado, o Cotinz já me falou. Mas o meu nome se pronuncia Vânks. É o nome de um jogador de futebol alemão; meu pai gosta pra caralho de futebol e, quando foi registrar meu nome, colocou Wanks e não falou pra ninguém. Ficou todo mundo escolhendo, mas ele que foi lá registrar e colocou o que quis! Diego também é por causa de futebol. Diego Maradona. Brisa do meu pai.

 

Mas ele queria que você fosse jogador ou algo assim?

Não… Nunca me forçou a nada, mas eu já joguei bola. Quando eu era moleque eu joguei até em estádio, num time lá de Ubatuba, mas aí conheci o skate e já era. Comecei a andar de skate e surfar, e depois foi só skate.

 

Você nasceu em Ubatuba. Com quantos anos e por que veio morar em São Paulo?

Com uns 18, eu acho. Eu vim pra andar de skate e pra viver, porque eu não gosto de morar em Ubatuba. Gosto de lá, da praia, da natureza, mas eu gosto mesmo é do lifestyle de São Paulo. Eu já conhecia uma galera daqui e sempre quis vir pra morar. Eu vinha correr os campeonatos e acabei conhecendo os caras da ZN. Então quando eu vim morar aqui, já vim acostumado.

 Diego Wanks, ollie to fs wallride. (Caetano Oliveira)

Ollie to frontside wallride. (Caetano Oliveira)

 

Quando veio pra cá você já andava de skate há quanto tempo? Tem uma cena legal lá?

Eu comecei a andar com 12 anos. Não tem muito pico, mas tem vários moleques que andam pra caralho… Pista pública tem uma só, sem apoio nenhum da prefeitura; já tá toda zoada e ninguém faz nada. Nem bebedor tem. Só fizeram a pista e foda-se. Estão falando que vai rolar outra agora.

 

Tem alguém de lá que merece ser citado aqui?

Tem um moleque que tá apavorando, o apelido dele é Brasil. Não lembro o nome dele. Mas tá andando pra caralho; moleque doido, só anda de skate. Ele vai andar muito ainda se tiver apoio. E tem o Elton que faz um corre pelo skate por lá, projetos, eventos… Merece ser lembrado.

 

E você acha que o “Brasil” vai se dar bem ficando lá?

Não, tem que vir pra cá. Lá é difícil, ele tem que vir pra aparecer, pra evoluir, andar em outras pistas, outros picos. Chega uma hora que lá fica limitado pro moleque. Aqui você tem mais opções de pista; mesmo que só tenha pista zuada aqui, tem mais que lá. E pico de rua em Ubatuba é quase nulo.

 

Você tá com algum patrocínio ou apoio agora?

Não. Nada.

 

Mas você tinha que eu lembro.

Tinha patrocínio da Skate Até Morrer, mas saí. Saí de boa, na amizade. Até hoje sou amigo dos caras, do Bruno… Foi problema de empresa. A gente estava planejando de me passar pra profissional no ano que vem mas, quando vimos que não ia rolar do jeito que a gente queria, preferimos nos desvincular pra eu poder correr atrás de alguma outra coisa. Conversamos e foi tranquilo. Só tenho a agradecer os caras de lá.

 

Diego Wanks, fs smith. (Caetano Oliveira)

Frontside smith. (Caetano Oliveira)

 

Você anda com o Apelão, com o Murilo (Romão), com o Xaparral, todos com patrocínios legais, bons. E eu já vi todos falando que você é um dos caras que mais anda, o que não é pouca merda vindo deles. Por que você acha que tá sem nada? O problema é você ou o mercado, as marcas?

É um pouco do mercado, que é ruim. Tem vários que andam pra caralho também. Não sou só eu que ando bem e não tenho patrocínio. E também acho que isso é porque eu ainda não apresentei uma parada marcante. Muita gente não me conhece. Meus amigos sabem como eu ando e consideram meu rolê porque estão comigo no dia-a-dia, mas eu nunca soltei uma vídeo parte ou uma entrevista, por exemplo. Ainda não tive uma exposição significante. Só tive uma capa. E uma capa é só aquela foto e acabou. Não dá pra saber se o cara anda bem só por uma foto, por melhor que ela seja.

 

E você não pensa em soltar uma parte?

Penso; já estou finalizando, inclusive. Tô filmando com o Guillis. Só eu e ele, uma parada independente, não é pra lugar nenhum. Depois a gente vai ver onde solta, se só joga no YouTube ou coloca na Black Media, na 100%, que cê acha?

 

Black Media.

Black Media? Vamos ver. Se rolar um faz-me rir… Hahahahaha! Mas faltam umas manobras que eu quero fazer… Quero descer uns corrimãos ainda. Faltam poucas.

 

 Diego Wanks, ollie to bs wallride. (Marcelo Mug)

Ollie to backside wallride. Repare na volta em cima da guia. E com o pé zuado. (Marcelo Mug)

 

Campeonato ou vídeo e foto?

Depende. Se você quiser um patrocínio da TNT, vai ter que correr campeonato. Você vai descer o El Toro de backside nosegrind e os caras não vão querer te colocar no time. Mas se você quiser outras paradas, vários patrocínios, o negócio hoje é vídeo. Mostrar o seu skate nos vídeos e em fotos também. É isso que vale hoje.

 

E entre vídeo e foto?

Ah, eu gosto muito mais de ver vídeo, ver o cara andando. Mas um complementa o outro, tem que ter os dois. Eu vejo muito vídeo, todo dia. Sou viciado em skate, assisto todos. Mas vejo mais dos caras que eu gosto, lógico.

 

E quem são os caras que você gosta de ver andar?

Ah, meus amigos… O Murilo, o Apelão… E da gringa o Busenitz, Grant Taylor, Mike Anderson. Tem um milhão de caras, não vou lembrar agora. Eu gosto de skate rápido, pra frente, largado. Tem o David Gonzalez também, Koston… Ishod Wair também acho foda. Qualquer um que vê o cara percebe que ele tem a essência do skate. Sempre se divertindo, suado… Sempre em cima do skate.

 

Então você gosta de skatistas suados?

Hahahahahahaha! Sabia! Vai se fuder!

 

Diego Wanks, nosemanual. (Caetano Oliveira)

Nosemanual. (Caetano Oliveira)

 

O que te dá raiva no skate, no mercado… O que te irrita?

Pro cara se dar bem lá na gringa, o mais importante é o skate do cara. E eles trabalham a imagem do skatista; se o cara for um lixo, for preso, eles transformam isso em algo vendável. Aqui, o skate do cara é a coisa menos importante. O que importa é a aparência, quantos seguidores ele tem no Instagram… Essas coisas que não deveriam ter importância. Isso é o mais zuado.

 

Quando você começou a andar, o skate na internet era nulo. Nem a própria internet era metade do que é hoje. Hoje em dia, a criançada começa no skate assistindo tutorial de manobra na internet. Você…

Não existe isso de “ensinar a andar de skate”. Skate você aprende sozinho: “Tó, vai pra rua aprender”. Mas também depende do que o moleque vê; se ele vê uns vídeos da hora, procura saber a história das coisas, de quem fez o skate antes dele, isso é legal. O problema é ficar vendo como se dá a manobra, isso não adianta. Aí, o moleque vai pra rua com o skate gringo novinho e nem risca o shape. Demora um mês pra riscar o shape. Não suja a camiseta, volta pra casa limpinho e vai pra internet de novo, ficar sonhando em ser os caras que ele assiste. Pra aprender tem que se fuder, ralar, bater a canela.

 

Concordo… Eles olham o Luan, por exemplo, e não veem que ele chegou lá andando por gostar de andar. 

Se o moleque já começa a andar pensando em ter sucesso, acho zuado, porque a parada mais da hora do skate é a diversão. E o moleque já começar querendo ser profissional é meio caminho pra se frustrar. A essência do skate é a diversão. Tem moleque que não sabe o que é fazer um palquinho e uma rampa, reunir a gangue e andar na rua de casa. Isso só acontece fora da internet, na rua. Tem muita gente começando a andar só por causa do Street League, que tá virando tipo uma NBA.

 

 Diego Wanks e amigos. (Marcelo Mug)

Foto: Marcelo Mug

 

O que você acha do Street League?

Eu curto ver, mas não briso tanto. Eu não deixaria de andar pra assistir. Mas se eu tô em casa e alguém fala que tá passando, eu vou ver. Eu acho da hora, apesar de ficar enjoativo às vezes. Toda vez o Nyjah ganha, é tudo muito parecido. Enjoa. Gosto mais de ver o Luan, por exemplo, que anda dando risada.

 

Você já trampou nos bastidores do skate, né?

Eu trampei numa fábrica, produzindo peças, trucks… E também na Skate Até Morrer, na loja.

 

Como é trampar em loja?

Ah, na loja simplesmente não entra skatista. Skatista não consome skate na loja. 99% das pessoas que entram na loja, pela minha experiência trampando em uma, são não-skatistas. É o pai ou a mãe que levam o moleque pra comprar o skate. Ou alguém que quer um long pra descer o Museu do Ipiranga. Essa galera movimenta o mercado. Eles tornam possível que caras como os meus amigos vivam do skate. Essa é a real. Skatista que anda há um tempo sempre tem um esquema, ganha peça de algum amigo que tem patrô, de alguma marca, ou compra mais barato… Apesar de na loja você só lidar com gente que não conhece o assunto, tem o lado bom, que é você ensinar, ajudar a pessoa e plantar uma semente que pode resultar num skatista como você. A mãe dele levar ele lá na loja não significa que ele não possa virar um skatista como os outros. E assim o skate cresce.

 

 Diego Wanks, bs crooked. (Caetano Oliveira)

Crooked. (Caetano Oliveira)

 

O problema não é o cara ser um prego, é continuar um prego pra sempre.

Sim, porque a gente começou sem saber porra nenhuma também, mano. Quando eu comprei a primeira rodinha, não conseguia colocar o rolamento e fui na loja falar que não era do mesmo tamanho do buraco. Aí o cara colocou pra mim e eu me senti um otário. Mas aí eu aprendi. Hahaha!

 

Qual foi a mais difícil de sair pra entrevista aqui?

A que eu acho mais da hora é o wallride que eu fui com o Caetano. Eu tentei umas cinco vezes, aí o segurança falou que não dava mais. Eu insisti muito pra tentar mais uma, ele deixou e eu voltei. Foi muito louco. O ollie wallride do Pão de Açúcar também foi da hora; eu morava ali do lado e sempre via o pico. No dia, eu torci o pé na guia mas, como tava quente, nem senti na hora. Doeu, mas eu continuei com o pé zuado e voltei. Depois doeu pra caralho. Me fudi, mas valeu a pena. E o crooked e o fs smith foram no mesmo dia, na Vila Madalena. Tava sem corrimão na entrevista, e no mesmo dia saíram dois. Eu queria.

 

Diego Wanks, bs 180 switch fifty. (Caetano Oliveira)

Backside 180 switch fifty. (Caetano Oliveira) 

 

Como você vê o lance de revista x internet hoje em dia?

Eu ainda quero uma entrevista numa revista. Acho que todo skatista quer, porque fica lá impresso pra sempre. É bem louco ver as revistas antigas… Mas a revista tá bem fraca aqui no Brasil, tá foda. As revistas são feitas em São Paulo e mal chegam na gente que mora aqui, imagina num moleque que mora longe. Só se alguém levar na mala. O site é bom porque todo mundo pode ver na mesma hora, em qualquer lugar do mundo, o alcance é muito maior. Eu fiquei meio assim de fazer umas fotos cabreiras pra soltar em uma entrevista no site; daqui a pouco vai ficando meio esquecido… Por outro lado, todo mundo vai ver. E mesmo se alguém entrar uma vez só, se for algo da hora vai ficar gravado, o cara vai lembrar da entrevista, das fotos.

 

O que você acha que as revistas tem que virar pra sobreviver?

Tem que mudar. Tem que juntar a força da internet com o papel. Trabalhar direito com as duas coisas. A revista tem que virar algo mais de colecionador, pro cara guardar. E o site é agilidade, vídeo, foto, cobertura de eventos…

 

Diego Wanks, bs boardslide. (Marcelo Mug)

Backside rockão de responsa. (Marcelo Mug)

 

E quando a perna não aguentar?

Bom, eu ainda nem ganho dinheiro com skate. Mas pode ser que eu queira montar uma loja, já pensei nisso. Ou montar uma marca, talvez em Ubatuba, pra fortalecer a cena de lá. Tem que ser algo com skate, porque é o que a gente vive, é a nossa faculdade. Só você vivendo o skate pra saber o que é da hora e o que não é. Do mesmo jeito que um cara se forma em medicina sabendo tudo sobre o assunto, a gente sabe tudo sobre o skate e tem propriedade pra falar e fazer. Quem tem que mexer com skate são os skatistas.

 

E as marcas que entram no skate depois de ver como ele está hoje?

Quem sabe do que acontece tem que conscientizar quem não sabe. Mesmo assim, poucos vão deixar de comprar um negócio só porque alguém falou que tal marca não agrega nada ao skate. Se eu colar na loja e o tênis de uma marca gigantesca, multinacional, estiver mais barato, eu vou comprar, mesmo sabendo que eles são muito maiores e tiram muita gente do mercado. Se eles vendem um tênis muito melhor e mais barato, eu vou pegar porque eu preciso priorizar o meu dinheiro. Não vou pagar R$300, R$400 num tênis nem fudendo. Mas quem puder comprar um produto que nasceu do skate mesmo, é melhor, tem que fazer isso.

 

Ninguém tem essa consciência de ver quem tá fazendo o quê.

E também ninguém fala essas paradas. A revista não vai falar mal do produto do anunciante dela. E tá certo, porque ela precisa viver. Além disso, as mídias meio que fantasiam o mundo do skate. Sempre tá da hora, todo ano evoluiu isso e aquilo, várias marcas chegaram, todo mundo se deu bem, é o segundo esporte mais praticado do Brasil, mas quem vive a parada sabe que não é assim, que tá um lixo. Vários caras que andam muito estão tomando no cu, várias marcas falindo e quem sabe das coisas fica fantasiando, falando que tá tudo da hora. A maioria dos caras que ficam falando tudo isso também não está bem. Sempre a mesma coisa.

 

Diego Wanks, bs wallride. (Caetano Oliveira)

Backside wallride monstro. (Caetano Oliveira)

 

E você acha que tudo isso tem solução?

Depende de nós que estamos fazendo a parada agora. Nós temos que fazer a mudança pra outras pessoas viverem a parte boa, um mercado melhor. As marcas de skatista que estão nascendo estão plantando as sementes, mas tá muito no começo ainda. Vai demorar um pouco, mas vai rolar. Vontade existe, só falta a estrutura. Mas tem gente boa já fazendo com estrutura também aqui… A Element, a ÖUS… Os caras são bons e tem bom gosto. Porque tem muita marca que tem estrutura e um mal gosto foda. A maioria dos brasileiros tem mal gosto, essa é a real; pra música, pra roupa, pra tudo. Pega as músicas mais tocadas no país, o programa mais assistido… É só ver.

 

E você ouve o que de música?

Ah, eu curto rap, uns hardcores também…

 

Wiggle wiggle wiggle?

Não, que que é isso? Eu curto mais rap nacional, mas gringo também. Tô ouvindo bastante rap ultimamente. Mas numa vídeo parte minha eu prefiro um rock, pelo meu estilo e tal.

 

E aquelas partes com MPB que muita gente anda fazendo hoje?

Ah, se combina com o estilo do cara e ele curte, acho da hora. Não é porque eu não gosto do negócio que é zuado, nada a ver. A minha verdade não é a verdade dos outros.

 

 

Você pode seguir o Didi no Instagram no @diegowanks.

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