Black View - 25.03.2015 Biano Bianchin


Todos os dias surgem novas provas de que a idade não faz nenhuma diferença para caras que são possuídos pelo skate. Biano Bianchin acaba de completar quatro décadas de vida e continua com o skate a as ideias afiadíssimas. Medo, roubadas, inspirações, patrocínios, vídeo parte e muito skate de primeira: Black View  pesadíssimo!

 

texto por Marcelo Mug

 

Biano Bianchin. (Marcelo Mug)

Foto: Marcelo Mug 

 

Das quatro décadas de vida, quanto tempo você passou em cima do skate? 

Das quatro décadas, 27 anos foram dedicadas ao skateboard!

 

Houve alguma época em que você chegou a enjoar e parou de andar por um tempo?

Então, nunca parei nem enjoei, mas teve uma época em que comecei a vir para Sampa em busca do meu sonho que, devido às circunstancias, dificuldades e roubadas, me fazia parar às vezes e perguntar: “Será que vale a pena? Será que é isso que quero para mim?”. Eu parava e pensava: “Mas o que vou fazer se não for andar de skate? Vou ser igual a todo mundo? Não! Vou sim andar de skate e lutar pelos meus sonhos, fazer tudo isso dar certo, e provar para mim e pra todos que tudo isso vale a pena”. Então não teve jeito; fui infectado de vez. Parar de andar nunca, e muito menos enjoar. É difícil enjoar do skate com tantas possibilidades. O skate evoluiu e se reinventa a cada dia, você está sempre aprendendo, buscando novos desafios. Por isso, nunca parei e nunca vou enjoar, mas isso é pra quem tem na veia de verdade!

 

Biano Bianchin, bs smith. (Caetano Oliveira)

Bs smith. (Caetano Oliveira)

 

Qual a maior roubada em que o skate já te botou?

Cara, foram tantas! Hahahaha! Falta de grana, não ter onde dormir… Lembro uma vez que eu estava vindo de Porto Alegre para Sampa de ônibus e, na época, quando chegava em casa, já começava a agilizar grana pra voltar pra Sampa. Dessa vez eu só tinha o dinheiro do ônibus e fui assim mesmo, sabia que ia ficar na casa de amigos. Essa viagem demorava 24 horas e eu não tinha grana nenhuma pra comer, só a grana do metrô quando eu chegasse em Sampa. Vim dormindo o máximo que pude para não lembrar da fome; todo mundo descia do ônibus nas paradas, só eu que eu não. Em umas das paradas, uma tiazinha percebeu que eu só dormia e não comia, e veio me perguntar se eu não ia comer. Eu disse que tava de boa. Na volta, ela me trouxe umas bolachinhas que foram a salvação; eu estava louco de fome já! Hoje falo que não foram roubadas, mas obstáculos a serem vencidos, o que eu chamo de escola da vida. Aprendi muito, todas as roubadas só serviram para me dar mais força e determinação no que eu escolhi pra mim. Quanto mais roubada eu passava, mais eu sonhava e mais me dava vontade e força para continuar. Acho que as roubadas fazem parte, é ai que você vê que quer mesmo, que aprende a dar valor às coisas. No skate não é diferente: você se torna um guerreiro e, no Brasil, você tem mesmo que ser um guerreiro pra atingir seus objetivos de vida!

 

Biano Bianchin, fs rockslide transfer. (Marcelo Mug)

Fs rockslide transfer. (Marcelo Mug)

 

A sua história é marcada por várias situações de risco, alguns tombos feios, corrimãos gigantes, coisas perigosas. Qual o maior medo que você já sentiu com o skate?

Bom, já tive vários. Teve a vez que operei o joelho, o que na época não era muito comum. Dez anos atrás não existiam tantos recursos como agora. Fiquei com muito medo de não conseguir andar como antes da cirurgia, foi foda! Mas acho que o pior foi quando eu caí no looping no Rio de Janeiro. Ali sim tive medo, muita dor e sofrimento. Por pouco não fico sem o movimento das pernas. A minha sorte foi que eu estava muito bem preparado fisicamente!

 

Qual a maior lição que o skate te ensinou?

É impressionante como o skate te dá lições de vida e ensina. Mas acho que foi a de cair, levantar e ser persistente. Quando a gente quer e acredita nos nossos sonhos, consegue!

 

Biano Bianchin, tailslide heelflip out. (Ban Carvalho)

Tailslide heelflip out. (Ban Carvalho)

 

Quais caras com mais de 40 anos te inspiram a continuar andando na pegada?

Com certeza, Mark Gonzales, John Cardiel, Daniel Kim, Mauro Mureta, Danny Way, Pat Duffy e Marcos ET.

 

Biano Bianchin, nosepick. (Camilo Neres)

Nosepick. (Camilo Neres)

 

Hoje em dia você se cuida, se alimenta bem, faz exercícios, leva uma vida saudável, mas nem sempre foi assim, certo? Se soubesse da importância e da diferença que tudo isso faz, teria feito isso desde moleque?

Com certeza! No começo, tudo era só uma brincadeira… E também, quando você é mais novo, não dá tanta importância para isso, não sente muito a diferença. Sempre fiz esporte desde pequeno; antes de andar de skate corria de bicicross, fiz um pouco de ginástica olímpica, isso me ajudou muito no skate. Na medida em que o skate vai evoluindo e exigindo mais do nosso corpo, você tem que acompanhar. Exercícios paralelos e alimentação são muito importantes para um bom desempenho no skate, e hoje isso me ajuda muito, por isso levo a sério. 

 

Biano Bianchin, boneless. (Marcelo Mug)

Boneless. (Marcelo Mug)

 

Como foi filmar a parte pro Made in Brazil 2 sendo o tiozão no meio da molecada?

Foi muito legal, porque gosto muito de desafios. Eles me fazem sentir vivo e no game, e acho que isso é muito  importante porque, ao mesmo tempo que tenho muito a ensinar, tenho muito a aprender, e isso que é legal no skate. Estar com a molecada me faz evoluir, aprender e provar que skate não é idade, e sim vontade e amor pelo que você faz. Fico feliz, porque assim estou conseguindo cumprir minha missão, que é mudar esse preconceito de idades e gerações, porque também já tive 15, 20 anos, e todos vão envelhecer. E todos que chegarem na minha idade andando, vão ter contribuído pro skate de alguma forma e querer seu devido respeito. Porque é assim que funciona. Pra quem não sabe, as coisas só se perpetuam quando formamos ídolos. O brasileiro chupa tantas coisas dos gringos e só esquecem do mais importante: formar ídolos! Quem foi sempre será; fica a dica para essa nova geração que pensa que skate é só Street League. Alguém precisa plantar para os outros colherem depois. Mas fiquei contente com o resultado e de poder fazer parte desse projeto totalmente brasileiro e independente. Isso me faz querer andar mais e mais!

 

Ops. (Marcelo Mug)

Opa, fudeu. (Marcelo Mug)

 

Eu tenho certeza que você é o skatista com mais capas de revista aqui no Brasil. Você sabe quantas capas já estampou? E entrevistas? 

Ô loquiu! Hehehe! Então, segundo minhas contas foram umas vinte capas e umas quinze entrevistas.

 

Biano Bianchin, fs rockslide. (Marcelo Mug)

Fs rockslide. (Marcelo Mug)

 

Você presenciou muitas fases do skate, e muita coisa mudou desde quando você começou a andar. O que você acha do skate hoje em dia?

Bom, de positivo vejo a consolidação do skate, a evolução dos materiais, o fácil acesso das informações… Tudo isso ajudou muito na evolução do skate e na evolução da molecada. O respeito, a valorização e a oportunidade de hoje podermos viver do skate como nosso estilo de vida, não super bem como deveríamos, mas vivemos dele.  A grande quantidade de pistas, mesmo que às vezes feitas como a cara dos nossos governantes, uma merda! O fortalecimento do nosso próprio mercado interno; somos independentes, não como em alguns outros países que dependem totalmente dos gringos. E a globalização do skate, que facilitou muito as coisas pra todos. O ponto negativo é o crescimento sem controle, sem organização, sem a união das empresas, e a imigração de vários oportunistas que só sugam e usam o skate mas não investem em nada. Sempre digo que agora é bonito ser feio. O mais foda é essa coisa da molecada começar a andar só por status, grana e fama. Perdemos um pouco do amor, da essência, a irreverência, e isso me preocupa um pouco!

 

Biano Bianchin. (Marcelo Mug)

Foto: Marcelo Mug

 

Muitos enxergam você como um exemplo de skatista que sabe gerenciar muito bem a carreira de profissional, lidar com patrocinadores, mídias e toda essa parte do business. Se você puder dar três conselhos para quem anda bem mas não sabe como lidar com essa parte, quais seriam?

Bom, o mais importante é você se valorizar. Se você não fizer isso, ninguém vai fazer por você. Com isso, as pessoas já passam a te ver de outra forma. Se você quer viver do skate, tem que tentar ser o mais profissional possível, e o business faz parte, não tem como fugir. É tudo parte desse quebra-cabeça. Você tem que cuidar da sua própria imagem, estar sempre aparecendo onde for possível, procurar saber e dar suas opiniões, saber o que vão fazer com você e sua imagem, sempre buscando o melhor para as duas partes. Gosto de fazer essa parte; para dar certo tem que encaixar tudo certinho, tem que gostar de se envolver… Isso vai de cada um mas, ao meu ver, é simples quando a gente curte e ama o que faz. É só nunca perder a essência, a humildade e o respeito pelo próximo. No fim, é por isso que existe mídia, patrocínio… Para que possamos viver nosso sonho. Então temos que tentar ser e fazer o nosso melhor; faz parte do game, gostando ou não. Como em qualquer outro trabalho ou lifestyle, as marcas só te patrocinam e pagam porque querem retorno, então é isso que faço. É uma troca, e assim podemos continuar vivendo nosso lifestyle e dando muito grindoooon!

 

Biano BIanchin, fs hurricane. (Caetano Oliveira)

Fs hurricane. (Caetano Oliveira)

 

Você tem algum ritual antes, durante ou depois de andar?

O único ritual que tenho para andar é estar sempre me alongando. Do resto, o skate se encarrega! Hehehe!

 

Biano Bianchin, fs feeble. (João Fenope)

Fs feeble. (João Fenope)

 

Pra fechar: resuma sua relação com o skate em uma frase.

Meu estilo de vida!

 

Biano Bianchin. (Marcelo Mug)

Foto: Marcelo Mug

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