Black View - 16.06.2015 Rafael Jacinto e João Kehl


É muito bom ver pessoas criativas saindo da zona de conforto. Existe o risco de sair uma bela merda, mas a chance do resultado ser uma parada foda faz valer o risco. Foi o que aconteceu quando a dupla de videomakers Rafael Jacinto e João Kehl encarou a responsa de fazer o vídeo do novo time da Converse.

 

Um é skatista desde criança, o outro mal sabe o nome das manobras. Parceiros em produções publicitárias, Rafa e João optaram por uma abordagem um pouco diferente; nada de fisheye e manobra atrás de manobra com som eletrizante. Eles vieram com uma câmera solta, uma pegada documental, rechearam o vídeo com depoimentos dos skatistas, e outras ideias que nem sempre estão nos vídeo de skate. E ficou bom pra caralho. Por isso resolvemos trocar uma ideia com o Rafa e o João pra saber mais sobre eles e sobre todo o projeto do vídeo.

 

Rafael Jacinto e João Kehl

 

Rafael Jacinto e Renato Custódio (Tiago Moraes).

 

Pra começar, falem um pouco da trajetória de cada um.



Rafa - Eu sou de São Paulo, paulistano mesmo. Sou fotógrafo desde 98. Trabalhei em jornais (Noticias Populares, Valor, etc.) e colaborei com várias revistas. Comecei a fotografar por causa do skate. Eu ando desde que tinha uns 9, 10 anos. Andava com a galera do prédio em que morava, todo dia. Fui crescendo com eles e a cultura do skate foi permeando nossa formação. Em 98, fundei a Agacê, com o Tiago Moraes, o Carlinhos Zodi e um outro amigo nosso, o Rashid, que logo saiu. Eu fotografava os amigos andando de skate e depois os anúncios da Agacê. Em 2003, fundei a Cia de Foto, que foi um coletivo com forte atuação nos mercados editorial, publicitário e artístico. Foi nessa época que conheci o João. O coletivo durou 10 anos e participamos de exposições, festivais, etc. Desde o final de 2013, eu e o João somos uma dupla de fotógrafos e diretores de filmes publicitários. Dirigimos pela produtora Paranoid BR e temos um estúdio para trabalhos comerciais e nossos projetos. Gostamos, sempre que possível, de participar do desenvolvimento do projeto desde o início. E com a Kultur a gente consegue isso. A gente senta e pensa junto com o Tiago o que é possível e como fazer o que ele imaginou. E tem rolado super bem.

 

João - Eu nasci em São Paulo, em 1982, mas passei grande parte da minha infância no Mato Grosso. Voltei pra cá em 1993 e estou aqui desde então. Comecei a fotografar ainda no colégio, depois de ganhar uma câmera do meu pai. Em 2001, entrei na faculdade de fotografia do Senac e, em 2004, passei a ser integrante da Cia de Foto, coletivo que tinha sido fundado pelo Rafa e pelo Pio Figueiroa, que durou até 2013. Desde então formo dupla com o Rafa. Somos fotógrafos e diretores na Paranoid e atuamos em diferentes áreas do mercado de comunicação.

 

Qual dos skatistas mais surpreendeu durante as filmagens?

 

Rafa - Todos são foda. Acho que o mérito desse time é cada um somar com uma qualidade e um estilo diferente. Temos aí uma diferença de 20 anos entre o mais novo e o mais velho. Isso mostra como é abrangente a equipe. Não fui surpreendido diferentemente por um ou outro. Todos eles surpreenderam de alguma forma.

 

João - Eu, na real, conheço muito pouco de skate. Por isso não sabia nada sobre eles até começarmos a filmar. Talvez, por isso, todos eles tenham me surpreendido de alguma maneira.

Eu acho que cada um dos skatistas tem seu estilo próprio e isso foi algo que a Converse levou em conta ao montar o time. Acho demais, por exemplo, a postura do Biano de transformar a cidade. São Paulo é uma cidade carente de espaços de vivência, então toda e qualquer iniciativa que visa transformar essa paisagem tem um grande mérito. O Felipe me surpreendeu pela maturidade com que enxerga o skate e o mundo. Apesar da pouca idade, tem ideias muito claras e é super articulado ao expressar o que pensa. Falou muito bem!

 

Rafael Jacinto e Henrique Crobelatti. (Tiago Moraes)

 

Henrique Crobelatti e Rafael Jacinto. (Tiago Moraes) 

 

E o que vocês acharam dos picos das filmagens?

 

Rafa - Filmar fora de casa parece que rende mais, pelo menos no meu caso. Filmar em Salvador foi legal demais. Demos uma puta sorte e pegamos dias lindos. Tem muita praça lá e o Sol da Bahia brilhou. Mas também gostei de ver os caras daqui ainda em busca de uma São Paulo diferente. E essa busca é o que move o street.
João - Salvador impressionou pela quantidade de lugares pra se andar de skate. A luz lá é foda e praticamente não existe qualquer tipo controle ou proibição.

 

 

Como foram as diárias de gravação? Rolou algum imprevisto, roubada, coisa engraçada?

 

Rafa - Foram muito fáceis.  A equipe tava muito entrosada. O Granja participou de algumas diárias e ele dá o maior gás nos caras, tipo motivador mesmo. O Tiago é um criativo aberto a sugestões e sempre foi parceiro nas decisões que tomamos durante o shooting. A Inez, da Converse, foi na primeira diária e depois deixou na nossa mão, nos dando liberdade total. Acho que não tivemos um único momento em que não estávamos 100% ali, nem a equipe nem os atletas. Sempre teve muito respeito, entre todos. Foram poucos imprevistos e nenhum deles significativo. Se teve alguma coisa engraçada? Muitas, rimos o tempo todo. E, sempre no final de cada etapa, a gente comemorava tomando um suco verde.

 

João - Foram doze diárias em cinco cidades diferentes e tudo rolou muito fácil. Foi uma maneira muito legal de conhecer lugares que dificilmente conheceríamos de outro jeito. Não lembro de nenhum imprevisto sério, mas lembro que demos muita risada.

 

 

Vocês fizeram algum tipo de roteiro pro vídeo? Quem escreveu? 

 

Rafa - Não teve um roteiro propriamente dito. Fizemos algumas reuniões com o Tiago e ele passou o briefing, mostrou o que já tinha sido feito pela marca, e nós fomos pensando juntos. Entrevistamos todos eles e, dessa entrevista, saiu muita ideia para a montagem ou captação das imagens. Acho que isso ficou muito bem representado. O video foi feito em cima das qualidades e vontades de cada atleta. A gente não impôs nada. A gente provocava, mas não impunha. E acho que, por isso, ficou tão verdadeiro.

 

João - O vídeo não teve um roteiro. Formulamos um questionário junto com o Tiago que tocasse em pontos que gostaríamos que os skatistas abordassem. Além disso, batemos um papo com os skatistas antes da filmagem pra entender o que seria legal de gravar do lifestyle deles. É um jeito bem próprio do cinema documental de trabalhar. O filme é um resultado dessa mistura entre o que foi planejado e o que era encontrado na hora. Nesse ponto, o trabalho de edição foi fundamental.

 

 

Rafael Jacinto entocado. (Tiago Moraes)

 

Por que vocês optaram por fugir um pouco da linguagem tradicional dos vídeos de skate? 

 

Rafa - O que é a linguagem tradicional de skate? A fisheye? Eu ando de skate há 30 anos e acompanho a evolução dele. Eu usei muito fisheye quando fotograva skate. Acho que é legal, é bonito, valoriza a manobra e tal. Mas não dá pra pensar fotografia com esse tipo de lente. Não tem construção de planos e/ou enquadramento. O fato do video ser preto e branco nos deu liberdade para pensar a luz. Filmamos muito no contra-luz, pra dar volume; fica bonito. Tentamos ser o mais cinematográfico possível. Usamos bastante lente grande-angular, mas as que não tem o efieto fisheye. E filmamos sempre com duas câmeras. Eu ficava mais próximo da ação e o João sempre com a tele para valorizar o moment e termos pontos de corte depois. Eu acho que o skate tem muito mais a mostrar do que só manobra, e essa era a proposta deste vídeo. Mostrar o lifestyle deles, deixar eles falarem. É uma proposta. Não tínhamos certeza de como ia ficar nem controle sobre tudo. Mas eu acho que só se evolui quando se arrisca, quando saímos da zona de conforto.

 

João - Eu e o Rafa sempre trabalhamos com uma linguagem documental. Desde os projetos mais artísticos até campanhas publicitárias, abordamos o assunto a partir desse prisma. Esse filme tem essa pegada.  Não é “apenas” um filme de skate, é um filme sobre pessoas e um pouco do que elas pensam do mundo.  Acho que isso está totalmente ligado ao posicionamento da Converse como marca. Do ponto de vista estético, partimos de um princípio pré-definido: o filme deveria ser preto e branco, porque é algo próprio da marca. Isso nos ajudou bastante, porque trabalhamos em lugares muito diferentes. O PB deu unidade a esses espaços e nos permitiu deixar o filme com uma estética marcante. Usamos muito contra-luz e grafismos ao compor os quadros. A ideia era deixar o filme mais cinematográfico e com menos cara de vídeo. No fim das contas demos um corte mais panorâmico e adicionamos um grão de negativo pra dar uma carinha mais analógica pra fotografia.

 

Felipe Oliveira, heelflip wallride. (Renato Custódio)

Felipe Oliveira, fs heelflip wallride. (Renato Custódio)

 

Qual o take que mais marcou nesse vídeo?

 

Rafa - Difícil. Muitos não entraram no video. Acho que pensar o skate é o que mais me marca sempre. E isso aconteceu em todos os takes.

 

João - Tem um take que gosto muito que é o do fifty do crazy no corrimão da Câmara. Ele estava nervoso de verdade e isso deu uma verdade pra cena que eu gosto muito. No fim das contas usamos o plano inteiro, que é bem longo, tem clima. Outro que marcou foi o fs heelflip wallride do Felipe. Não lembro quantas vezes ele tentou, mas sei que ele já quase não tinha forças quando acertou. O calor estava matador. Era fim de tarde e a luz estava muito foda. A foto que o Ned fez dessa manobra é absurda.

 

Contem um pouco como é a relação de vocês com o skate.

 

Rafa - Quando eu tinha nove anos, mudei para um prédio que tinha um térreo perfeito para andar. Lá moravam o Tiago Moraes, o Keke Toledo e mais uma turma. Além deles, tinha a galera que aparecia praticamente todo dia pra andar. Na adolescência, percebi que esse era o jeito mais digno e mais contundente de se relacionar com a cidade. E assim foi. Todas as minhas decisões foram baseadas em uma vivência diretamente ligada ao skate. Profissão, formação de caráter, escolha de amigos, por exemplo.

 

João - A real é que o skate entrou na minha vida através do trabalho. Não ando de skate e sei muito pouco. Boiava bastante no set quando todos começavam a falar os nomes das manobras. Hahaha! Meu esporte é a bike. Mas o universo do skate é muito rico e extremamente imagético e isso me instiga como produtor de imagem. Além disso, é uma forma das pessoas se apropriarem da cidade, e isso é um outro ponto que acho foda, pois nossas cidades são muito carentes.

 

Rafael vandalizando. (Tiago Moraes)

Rafael vandalizando. (Tiago Moraes)

 

Em quais outros vídeos de skate vocês já trabalharam?

 

Rafa - Profissionalmente, esse e o da Nike com o Luan, para a Copa do Mundo. No final da década de 80 e inicio de 90 a gente filmava os amigos. Fizemos um vídeo que chamou “Era uma vez 3’, que juntava a minha turma e a do Alê Vianna. Nesse eu filmei um pouco e andei. O Philip, que era do nosso prédio também,  foi quem filmou a maior parte e editou com o Alê, que sempre colava pra andar junto. Dá pra ver o vídeo, tá no Vimeo.

 

João - Esse foi meu segundo vídeo. O primeiro também fizemos com a Kultur. Foi um vídeo para a Nike, com o Luan de Oliveira. A ideia era muito legal: incentivar os skatistas a ocuparem a cidade nos dias dos jogos da copa, dias em que as cidades ficam praticamente desertas e todo pico vira um pico possível de se andar de skate.

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