Black Mind - 04.08.2016 Skate, termodinâmica e as Olímpiadas


O que skate, a termodinâmica e as Olímpiadas tem em comum? Agora que o skate está confirmado nas Olímpiadas, está tudo estragado? Vamos todos virar um bando de atletas saudáveis? Seremos recebidos com sorrisos nos picos de rua? Ontem lançamos o vídeo da Roosevelt, Radiação. Ironicamente, o skate foi confirmado nos Jogos Olímpicos de 2020 no mesmo dia. Foi aí que resolvi parar de enrolar e terminei esse texto. Tá grande pra caralho, mas acho que vale a pena a reflexão e sua participação nos comentários. Vamulá.

 

por Felipe Minozzi (Fel)

 

Black Mind - O skate, termodinâmica e as Olímpiadas

 

Esse ano, finalmente, eu li Uma Breve História do Tempo, do Stephen Hawking. O livro é difícil, pelo menos pra um leigo interessado em ciência, como eu. Absorvi algumas coisas; por outras passei batido, sem entender muito. Depois eu leio de novo. No capítulo 9, A Seta do Tempo, uma parte me chamou a atenção e fiz, imediatamente, o paralelo com o skate atual e toda a discussão sobre as Olímpiadas.

 

O trecho diz: “A segunda lei da termodinâmica resulta do fato de que existem sempre muito mais estados desordenados do que ordenados”. Ou seja, um quebra-cabeça tem apenas um estado ordenado, que é quando a figura se forma, mas infinitos estados desordenados, quando as peças estão bagunçadas. O skate é igual. Você pode organizá-lo, criar regras mas, no fim, ele volta ao estado natural, à desordem. Não existe nem nunca existirá um jeito honesto de se dar uma nota pra algo assim. Quando você dá uma nota pra uma manobra, está reduzindo o estilo, a alma, a um número. Não há o que fazer.

Black Mind - Skate, termodinâmica e Olímpiadas

Eis os skatistas que aceitaram o skate nas Olimpíadas. Á esquerda, o Comitê Olímpico Internacional. À direita, os representantes japoneses. E você ainda tá dando atenção? (reprodução japantimes.co.jp)

 

A segunda lei da termodinâmica diz que, conforme o tempo passa, a desordem toma conta. Tudo que está ordenado tende a se desordenar. Um copo em cima da mesa é um estado ordenado. É fácil deixar o copo cair e se quebrar em mil pedaços, mas impossível de fazer o copo se juntar sozinho e pular de volta pra cima da mesa. Para se colocar tudo em ordem novamente, é preciso gastar energia. Você vai ter que limpar, colar, arrumar tudo, sabendo que a desordem voltará, implacável, uma hora ou outra. É muito mais fácil quebrar o copo do que consertá-lo. Foi aí que pensei nas Olímpiadas.

 

As Olímpiadas são a tentativa máxima de se organizar o skate, colocando-o lado a lado com os 100 metros rasos, a natação, a esgrima, ou seja, esportes que são esportes de verdade. Tente imaginar o quanto de energia já foi e ainda será gasta tentando se organizar algo tão visceral como o skate. Quando pensei pela primeira vez no skate nas Olímpiadas, fiquei puto, achei uma merda, pensei que isso estragaria tudo, mataria nosso estilo de vida aos poucos. Seria o início do fim. Mas hoje vejo que não passa de uma empreitada inofensiva, que vai se restringir a um mês, de quatro em quatro anos e, no dia seguinte, estará morta e enterrada debaixo de uma parte do Eric Winkowski acertando tudo na marra em um monte de pico podre.

 


Erick Winkowski não vai arrumar nada nas Olímpiadas se continuar se comportando assim. Tsc tsc.

 

Haverá discussões, notícias, textos, vídeos, opiniões sobre o assunto. É óbvio. Nós vamos dar as notícias aqui; vamos falar quem ganhou e quem perdeu. Há skatistas que vão se dedicar desde já, outros vão correr só porque apareceu a oportunidade e ponto final, sem pensar na política da coisa. Mas a desordem do skate vai retomar seu lugar no dia seguinte, sem muito esforço, mais forte do que antes. Ou você acha que depois das Olímpiadas o cidadão comum, de bem, protetor da família tradicional, vai aceitar que você quebre a escada da casa dele, arranhe a pintura do corrimão, da parede? Você que anda na rua vai continuar sendo um desordeiro. Nada vai mudar. O skate é um crime e sempre será, se você fizer direito. Não existe esporte que arranque um sorriso por causa da destruição de propriedade privada, desculpa. Pelo menos agora você pode dizer que aquele slap safado que você dá é treino olímpico.

 

Você acha mesmo que as Olímpiadas vão matar isso aqui um dia? Jamé.

 

Eu nunca gostei muito de ver campeonato, acho chato pra caralho. Campeonato de skate é a tentativa de embutir regras em algo que nasceu para quebrá-las. Campeonato vale a pena como reunião, confraternização. As Olímpiadas serão o “estado ordenado máximo” do skate. O skate encaixado em regras que nunca viu, em padrões que nunca seguiu, lado a lado com esportes de verdade. É a quadratização máxima do nosso estilo de vida; o skate preso numa coleira nas mãos de grandes empresários, que precisam de mais e mais dinheiro. Mas continuará sendo apenas um estado ordenado, a exemplo do Street League, contra os infinitos estados desordenados que ele oferece. Mike Vallely não ganharia uma Olímpiada. Nem Richie Jackson, Gou Myiagi, Louie Barletta, Cotinz, Sérgio Santoro, Peter Hewitt, Felipe Oliveira. Você, que quer ver o skate indo cada vez mais por esse caminho, já parou pra pensar o que seria do skate se só existisse a ordem? Só caras técnicos? Se o objetivo de todo skatista fosse competir com o outro, ganhar esse ou aquele evento? Seria uma bosta. Ainda bem que isso nunca vai acontecer.

 

Evento bom de skate é assim. Tente sentir o clima olímpico no ar.

 

Um dos objetivos ao incluir o skate nos Jogos Olímpicos, segundo o próprio Comitê Olímpico Internacional, é trazer a nova geração pra perto, gerar comentário nas redes sociais. Está claro que as Olímpiadas precisam do skate, mas o skate não precisa, nunca precisou e nunca vai precisar das Olímpiadas. Penso que, pra quem vive o skate como nós, todo dia, respirando essa cultura, consumindo diariamente, vivendo dele, as Olímpiadas serão um evento meia-boca de um mês que não vai estragar nada, se você souber pra que lado olhar. Vai render até umas risadas. Quero ver o Galvão Bueno gritando: “É nollie heel! É do Brasil!”. A importância disso tudo estará em nossas mãos, no fim das contas. Não vai fazer tanta diferença assim. Talvez ocorram algumas mudanças no mercado, pro bem ou pro mal. O Street League já causou mudanças, por exemplo. Mas o coração do skate não se alterou, ele cresceu pros dois lados. Cresceram as marcas underground e cresceu o mainstream. Aumentaram os fãs da Nike e aumentaram os fãs da WKND. Normal. Você escolhe o caminho que vai trilhar. Os Jogos Olímpicos só serão importantes na vida de quem quiser ou deixar.

 

Com certeza, as Olímpiadas vão mexer com a cabeça de alguns. “Skatistas” deslumbrados vão tomar os Jogos como a referência máxima do skate, de “quem é o melhor do mundo” e outras babaquices desse tipo. Vão vibrar genuinamente com um título brasileiro. Talvez eles achem que a inclusão do skate seja uma grande vitória. Não é; é apenas uma decisão tomada por pessoas que estão interessadas em dinheiro. Simples. E nós não podemos proibir, afinal, ainda sou da opinião que o skate não é de ninguém.

 

Black Mind - Família

“É assim que você vai fazer nas Olimpíadas, filhote? Ai, que lindo da mamãe!”

 

Se você acha que um pódio olímpico vale alguma coisa pro skate, você não entendeu nada, ande o tempo que for. O valor do skate não é tangível assim. Grana? Ninguém, tirando um ou dois empresários, vai ganhar muito mais grana do que já ganha. As Olimpíadas não dão grana; quem dá grana é a Nike, o Barcelona, a NBA

 

Mas o fato é que os skatistas pró-Olimpíadas já estão entre nós faz tempo, sempre estiveram. São os caras que se incomodam em receber olhares tortos. São os caras que lutam pela aceitação do skate dentro de uma sociedade careta com valores ultrapassados, que se importam com isso. Que precisam ser bem vistos. Que tem vergonha de entrar no banco, usando boné, pra falar com o gerente. As Olímpiadas não vão criar esse tipo de gente, eles já existem. As Olímpiadas serão seu objetivo de vida. O estado máximo, definitivo do skate. Vão fazer faixas de torcida, pagar ingressos inacreditavelmente caros pra assistir, torcer contra o outro skatista. Vão bater no peito pra falar que o skate não é mais um crime. Esse texto não é pra elas. Aliás, a Black Media não é pra elas. Se você acha que um dia vamos lutar com unhas e dentes pra alguém nos aceitar, você não entendeu nada. Se você for uma dessas pessoas, pode sair sem comentar. Você pode tentar, argumentar, xingar, mas nunca vai colocar ordem na nossa desordem. Até a ciência tá do nosso lado. Um abraço. Até 2020, amigão.

 

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