Jetlag - 19.09.2016 Colin Read e sua Spirit Quest


Um dos melhores e mais criativos videomakers do skate atual, Colin Read, também conhecido como Mandible Claw, falou à Jenkem sobre seu novo vídeo, o aguardado Spirit Quest. Conhecido por suas ideias fora do comum, Colin é um adepto da diversão acima de tudo, na hora de andar de skate ou na hora de filmar. Confira a entrevista e, se você ainda não conhece o trampo do cara, faça-se um favor e não perca mais tempo. Skate do melhor.

 

introdução e tradução por Felipe Minozzi (Fel) / entrevista por Nic Dobija-Nootens – Jenkem

 

Colin Read (reprodução Jenkem /Allen Ying)

Colin Read (reprodução Jenkem /Allen Ying)

 

No momento, você está deitado no sofá com uma bengala, porque estava no hospital pra operar as costas. O que aconteceu?

Bom, entre as suas vértebras existem discos, que servem como amortecedores. Um dos meus, basicamente, estourou. Se você fizer uma ressonância magnética, vê que os outros são redondos, e esse tá tipo uma linha preta. Ele pega nos nervos, o que causa muita dor localizada e espasmos musculares. Estou com esse problema há três anos e só estava piorando, mesmo eu tratando de várias maneiras: injeções de todo tipo, fisioterapia duas vezes por semana, exercícios, alongamento, massagem, acupuntura, shiatsu…

 

Tudo isso de tanto filmar?

Não tenho ideia. Com certeza, parte disso veio de filmar e andar de skate, e parte é genética.

 

Se sobrar Percocet (remédio pra dor), você vai vender?

Não. Eu preciso dele.

 

Dando um passo pra trás, como foi que você começou a filmar e fazer vídeos?

Eu nunca quis filmar. Mas acabei sendo “o cara com a câmera”. Em dado momento, acabei me machucando feio, e o único jeito de continuar próximo dos meus amigos era filmando até melhorar. Foi assim que aconteceu.

 

O seu nome de videomaker, Mandible Claw, não é o nome de um golpe especial de um lutador?

É, do Mankind.

 

Então você tem um histórico de esganar as pessoas, ou de ser esganado?

Acho que nunca enforquei ninguém, nem fui enforcado. Um segurança uma vez me enforcou. Foi culpa do Daniel Kim (não é o brasileiro), por entrar com cerveja escondida no bar.

 

Colin Read (reprodução Jenkem)

É isso que acontece com quem faz vídeos de skate. (reprodução Jenkem/Colin Read)

 

Você usou animação e efeitos especiais lo-fi nos seus três vídeos: Mandible Claw, 561 to NYC e Tengu. Por que você gosta disso?

Eu acho engraçado. É isso, na verdade. Eu assisti o Mandible Claw recentemente e não acreditava como os efeitos são ruins. Fiz quase todos no próprio Final Cut, o que é uma loucura, olhando agora. Espero que agora meus efeitos estejam melhores.

 

O seu estilo de filmar também evoluiu. O Tengu era cheio de cortes rápidos, ângulos alternativos pras manobras, muito menos câmera lenta que a maioria dos vídeos de skate e, baseado no trailer do Spirit Quest, você tá até filmando com duas câmeras ao mesmo tempo. O que influenciou nessa evolução?

Muito disso vem de eu estar preso dentro da minha própria mente. Eu não tenho assistido vídeo de skate há um tempo, por estar muito focado no que estou fazendo. Eu tirei muita coisa de documentários sobre a natureza. Tentei reproduzir o sentimento que eles transmitem, como se você estivesse testemunhando algo selvagem.

 

É importante, pra você, estabelecer seu próprio estilo como videomaker?

Acho que é importante, no que quer que você faça, achar seu próprio estilo de fazer, um jeito seu. Algo que é seu, que você trabalhe naquilo. Senão, não acho divertido. É como tocar numa banda cover contra escrever suas próprias músicas.

 

 

Realmente, parece que existe um estilo padrão pra se filmar vídeos de skate.

Existe um padrão de vídeos de skate. Algumas fórmulas diferentes que as pessoas seguem. Não quero dar nome aos bois, mas acho que a maioria dos vídeos de skate atuais são extremamente chatos. Alguns são muito bons e divertidos. O vídeo novo do Zach Chamberlain foi muito divertido. Acho que as pessoas devem tentar se divertir mais com o que fazem, ao invés de ficarem presas ao que elas acham que vai funcionar. Se eu continuasse com a fórmula do meu último vídeo, porque aquilo pareceu funcionar, não teria sido divertido dessa vez. Eu estaria fazendo a mesma coisa de novo. A única coisa divertida é tentar fazer algo diferente.

 

Você mudou pra Nova York em 2010 e conseguiu um Mestrado em Belas Artes, em escrita creativa, na NYU (Universidade de Nova York). Você tinha intenção de fazer uma carreira como escritor?

Ainda gosto de escrever. Faz anos que não escrevo. Eu só consigo focar em uma coisa de cada vez e, ultimamente, são os vídeos de skate. Mas eu estou aposentado agora, então vou escrever de novo.

 

Aposentado do quê?

Dos vídeos de skate.

 

Por quê?

Porque estou feliz com o que já fizemos e quero fazer algo diferente. Eu sei que, em seis meses, vou estar maluco querendo fazer outro vídeo mas, por enquanto… Talvez eu esteja me convencendo disso por causa da minha condição física, da minha saúde no momento.

 

Colin Read - Jetlag

 

Se você voltar a escrever, vai escrever o quê?

Ficção erótica de skate? Não, sei lá. Acho que o skate é, de alguma forma, incompatível com a escrita. Pelo menos a ficção. Sempre que você vê skate num filme é algo ridículo. Quando alguém tenta escrever sobre skate, acaba tentando descrever o skate pra quem não anda de skate, e isso sempre dá errado. Vou ficar de fora desse crossover.

 

Você tinha duas webséries. O New York Clips na SLAP e o MCVX no Ride Channel. Como foi isso?

Depois do 561 to NYC ser lançado, o cara no comando da SLAP me procurou. Aquilo era tudo coisa que ficou de fora do Tengu, o vídeo que estava fazendo na época, então foi um jeito bom de aproveitar todo o material. Quando fui demitido da SLAP, o Ride Channel me chamou. Isso foi ótimo, porque eu estava quebrado de grana. Veio na hora certa. Eu fiz uma temporada e foi muita encheção de saco, então deixei terminar.

 

Encheu o saco como?

Era muita coisa pra fazer. O Ride Channel queria que eu conseguisse autorização de imagem de todo mundo que aparecia nos vídeos, que eu conseguisse os direitos pra usar as músicas, falar com os artistas, ser um produtor e tal. Eu não estava interessado em nada disso. Além disso, não aguentava mais essas mídias de skate, esses canais que se aproveitam das pessoas. Não queria mais ser parte do problema.

 

Você ganhou dinheiro com alguma dessas webséries?

Um pouquinho. Os da SLAP eram US$100,00 ou US$200,00 por vídeo.

 

 

Você tem pretensão de ganhar a vida fazendo vídeos de skate?

Não, cara, eu tô aposentado. Aposentadoria é demais. Quando digo que estou aposentado, é que eu gostaria de me aposentar de filmar skate. Gostaria de pegar todo esse tempo filmando e andar mesmo de skate. Quando – e se – eu puder andar de novo, tudo que quero fazer é andar de skate. Eu tenho certeza que, assim que estiver fisicamente capaz, vou começar outro projeto, porque tenho várias ideias não realizadas. Eu não posso ficar mais nessa de filmar de fisheye, mas tem várias outras maneiras de se fazer um filme.

 

Você usaria drones? Ficar sentado em casa e filmar?

Aí que tá. Tem vários caras bons com a VX, mas ainda não temos um piloto de drone que filme inacreditavelmente. Talvez seja eu. Talvez eu me torne o Barão Vermelho dos drones.

 

Antes de se aposentar, você já quis trabalhar como videomaker de alguma marca?

Eu fiz alguns promos e vídeos pra marcas de amigos. A palavra-chave aqui é “amigos”. Só gosto de trabalhar pra empresas de pessoas que já são meus amigos, e pra pessoas de quem eu já gosto do trabalho. Se é algo que não me anima, prefiro não fazer. Além disso, você não consegue ganhar dinheiro no skate. Eu ganhei durante alguns anos, fiz as webséries e vendi clipes pra outros vídeos, e era tudo muito exaustivo. Eu gosto de trabalhar nas minhas próprias coisas, fazendo exatamente o que eu quero, sem responder a ninguém. Fico feliz fazendo vídeo de skate do jeito que eu quero, com o meu dinheiro.

 

Ao invés de ter um plano de marketing comandando seu vídeo?

É. Quando essas empresas gigantes fazem vídeos de skate, eles fazem pra vender produtos. Ele estão tentando fazer aquilo parecer legal, e não fazer algo significativo pro skate. Pra mim, o importante é ter uma visão criativa e não deixar ninguém atrapalhar.

 

 

O Spirit Quest, seu novo vídeo, sai esse mês. Como você o descreveria?

É um safari. Um skate safari.

 

As pessoas vão ficar confusas quando assistirem?

Tem uma grande chance das pessoas se confundirem assistindo a esse vídeo.

 

Que tipo de animais você vai levar à première?

Eu ia colocar no flyer que todos os animais são bem-vindos, já que esse é um vídeo feito para animais, mas acho que o cinema não vai deixar.

 

Mas a gente podia tentar, né?

Acho que vale uma tentativa. Se for um tipo quieto de réptil ou coisa do tipo, acho que é tranquilo.

 

Como o Tengu, o Spirit Quest parece ser um vídeo bem internacional. Isso é importante pra você?

Eu amo viajar, e o skate é algo internacional. As pessoas que você conhece pelo mundo inteiro, todas diferentes. Todos acabam virando amigos. Se eu conhecer uns japoneses aqui em Nova York, vou acabar indo pro Japão passar um tempo com eles. Meu sonho era ir pra África filmar pra esse vídeo, mas acabou não rolando.

 

Você também incorpora o skate internacional diferentemente das grandes marcas, que só viajam pra filmar algumas manobras em picos estrangeiros.

Ah, é. Os outros vídeos tem vinte minutos de imagens na China, por exemplo, mas nenhum skatista chinês. Onde estão os skatistas chineses? Eu tento enxergá-los. Tenho certeza que tem skatistas bons pra caralho na China.

 

Colin Read - Jetlag

 

Qual o pico mais difícil do Spirit Quest?

Tem um clipe do Matt Town; a gente estava andando perto dum gueto e o cara saiu falando: “Eu tô quase subindo pra casa, mas vou dar cinco minutos pra vocês andarem”. A gente andou por dois ou três minutos e o cara volta com um taco de baseball e fala: “Beleza, eu fui legal. Agora é hora de derramar sangue”. O Matt falou: “Não, cara, mais um tentativa!”. Ele tentou mais uma, acertou e a gente saiu correndo.

 

As vendas de DVD dos seus vídeos dão alguma grana?

Eu não acho que um dia vou ficar “no verde”. Sempre vou estar no vermelho. Não consigo nem começar a imaginar quanto dinheiro gastei pra fazer esse vídeo. Quantas câmeras e lentes comprei, as passagens de avião, contas e dívidas médicas, de fisioterapia pra conseguir continuar filmando. Só vai aumentando.

 

Quando as partes soltas começaram a sair online e isso começou a ser algo comum, muita gente pensou que isso seria o fim dos vídeos como a gente sempre conheceu. Acho que é justo dizer que isso não aconteceu. Por quê?

Pelo mesmo motivo que existem filmes mesmo quando há programas de TV. São entidades diferentes, formas diferentes de arte. Dito isso, eu odeio partes soltas assim. Existem exceções mas, na maioria, é algo sem graça e, muitas vezes, parece que aquilo poderia ter sido parte de um projeto maior, mais memorável. A fábrica de conteúdo tem que continuar produzindo, cara. A roda continua girando, não importa o que aconteça.

 

Nos últimos anos, sites como a Thrasher e Transworld começaram a soltar vídeos independentes na internet quase toda semana. Isso é bom pra esses videomakers?

Acho que, se você pegar caso a caso, até que é bom, mas o problema é a saturação. É ótimo ver tanta gente fazendo seus próprios vídeos e poder colocá-los numa vitrine que mostre aquilo pro mundo todo. Mas, quando saem vídeos com essa frequência, a coisa se perde. Se a Thrasher solta um vídeo inteiro toda semana, você nem lembra mais daquele que saiu mês passado. Alguém coloca dois anos de vida naquilo e é rapidamente substituído pelo próximo. É difícil. Acho que não existe alguma resposta boa sobre qual é o melhor jeito de assegurar que seu vídeo seja visto e lembrado. É bom que existam essas vitrines onde skatistas que não fazem parte da indústria possam ser vistos. Mas essas pessoas também podem acabar sendo exploradas e, quando o próximo vídeo sair, são varridas pra debaixo do tapete.

 

Footy check (reprodução Jenkem/Mike Heikilla)

Footy check (reprodução Jenkem/Mike Heikilla)

 

E esses vídeos viram parte do conteúdo constante que sai nesses sites, que podem ganhar mais dinheiro dos anunciantes com eles. Você acha que os videomakers ganham algum dinheiro com isso?

Sem chance. Não. Eles não estão ganhando nada.

 

Por que você acha importante fazer uma première no cinema ao invés de apenas online?

O motivo de tudo isso é poder assistir o resultado final e comemorar com meus amigos, ao vivo. Tudo gira em torno disso. Eu conversei sobre isso com o Josh (Stewart) e ele me disse a mesma coisa. O momento pelo qual você vive é a première. Você finalmente vê o resultados dos seus esforços. Dessa vez, meus amigos do mundo inteiro estão vindo pra assistir.

 

Fazer vídeos de skate é difícil pra caralho. Tira seu dinheiro, seu tempo e até sua saúde. Qual a parte de fazer vídeos de skate que te deixa mais feliz?

Porra, me aposentar. É muito bom. Todas as partes são recompensadoras. Filmar quando alguém acerta uma manobra que tá tentando, ou editar e achar aquela conexão, um paralelo muito bom… Colocar algum efeito engraçado. E é claro, a première. Curtir tudo aquilo e, depois, nunca mais assistir de novo.

 

entrevista por Nic Dobija-Nootens – Jenkem

tradução por Felipe Minozzi (Fel)

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