Black Mind - 21.06.2017 A Carta de 1988


Sempre que vou ao banheiro ter um momento de contemplação, levo alguma coisa pra ler. Esses dias, levei uma Thrasher antigona que tenho aqui em casa, edição de novembro de 1988. Nem capa tem mais. Por algum motivo obscuro, estava lendo as cartas dos leitores e me deparei com essa, a maior da edição, escrita pelo Paul deParrie, de Oregon, skatista dos anos 60.

 

Apesar de soar bem conservador, as reclamações dele e o modo como ele enxergava o skate na época formaram, na minha mente, um paralelo automático com os dias de hoje. Ainda reclamamos do não reconhecimento da sociedade, precisamos de mais pistas, somos incompreendidos e vistos como uma sub-categoria de cidadãos. Mesmo estando no Brasil e a carta sendo de um norte-americano, essas são realidades quase universais.

 

Não vou nem dizer se concordo ou não com o que o cara escreveu; o fato é que se passaram praticamente 30 anos e a carta dele continua atual. Lembre-se: era 1988! Será que eram problemas de época? Será que a idade muda tudo? O skate precisa mudar e se adaptar? Vamos discutir isso nos comentários.

 

introdução por Felipe Minozzi (Fel)

 

Carta - Thrasher - 1988 - 01

 

“Escrevo isso como skatista das antigas, do começo dos anos 60, quando passamos dos patins pregados em pranchas de madeira para o primeiro shape comercial da Hobie (maple sólido e pinheiro). Agora, meu filho é skatista.

 

Meu contato com a Thrasher, em especial com as cartas dos leitores, me deixou imaginando se o skate tornou-se um domínio de bocas-sujas, choramingões, covardes chorões. Parece que eles não tem nada melhor pra fazer além de reclamar que são tratados como párias, isso depois de darem todos os motivos pra sociedade fazer exatamente isso. Irritando todo mundo, eles continuam o “skate and destroy” – destruir propriedades, a paz dos outros, a segurança pública e suas próprias chances de um dia serem tratados como iguais.

 

Sei que isso não é uma verdade absoluta, visto que meu filho e seus amigos desafiam essa imagem.

 

Eu li a seção Skater´s Edge, da Bonnie Blouin (edição de agosto/88) com o alívio de que nem todo mundo no skate sucumbiu ao pessimismo e ao niilismo, tão frequentemente associados com os skatistas. As recomendações da Bonnie, de se organizar pra ganhar reconhecimento dos “poderes da sociedade”, foram certeiras. Eu tenho dito a mesma coisa pro meu filho nos últimos anos. Como ativista político, já percebi que nada vai acontecer até que ele ou, no caso, os skatistas, ajam – ouso dizer – por dentro do sistema. O skate precisa se tornar um desses poderes – não chorando ou com atitudes antissociais, mas com atitudes razoáveis e organizadas. O choramingo que venho ouvindo é apenas uma capa para a preguiça e apatia, e sua consequência é continuar sendo tratados como crianças.

Se você está esperando que alguém vá acordar um dia, perceber que não respeita o skate e mudar espontaneamente, você vai esperar muito. Você precisa se fazer ser ouvido – não com raiva, agressão e rispidez, mas com razão. Você acha que os tenistas gritaram, quebraram as raquetes em propriedades públicas e privadas, ameaçaram as pessoas pra conseguir que a cidade construísse todas essas quadras por aí?

 

Carta - Thrasher - 1988 - 02

A carta foi bem grande mesmo. Aqui a última página dela. (Reprodução Thrasher)

 

Cultivando a imagem de rebeldes, os skatistas estão se prestando um desserviço. Essa imagem firmou-se tanto, que uma grande parte da sociedade -  e é deles que vocês precisam do reconhecimento, galera – vê os skatistas como intratáveis, violentos. Isso não é legal, visto que eu sei que não é verdade.

 

Talvez uma das maiores barreiras que eu veja é a linguagem. Não a linguagem técnica das manobras – ollies, acid drops, aéreos – mas o uso monótono de termos como “pissed off” (algo como “puto da vida”), “fucking this” e “fucking that”, e outros sinais de deterioração mental. Em primeiro lugar, esse tipo de linguagem torna difícil a comunicação quando ela é mais necessária. Imagine um skatista pedindo por uma pista na prefeitura: “Bom, prefeito do caralho, quero que a prefeitura aprove a porra da pista. Vou ficar putasso se a porra da assembleia votar contra essa porra”. Ótima impressão! Essa linguagem é pra imbecis que não tem nada na mente além da rebeldia de usar palavras que suas mamães proibiam.

 

A língua é tão variada e expressiva; por que parecer idiotas bêbados e drogados? Pega o “puto”, por exemplo. Dá pra substituir por irritado, aborrecido, zangado, ofendido, chateado, indignado, enervado, furioso, raivoso, etc. Aí vai parecer que você tem um cérebro que funciona! Como a Bonnie disse acertadamente em seu artigo: “Pense no esforço que você fez até dar o primeiro ollie”. Ser um pouco mais articulado exige esforço, mas trará resultados.

 

Os skatistas podem, com esforço, exigir o respeito que esquiadores e outros esportistas recebem dos que estão no poder, mas vai exigir um novo lema – Skate and Construct.

 

Paul deParrie – Portland, OR”

 

Carta - Thrasher - 1988 - 03

Essa página não tem a ver com a carta, mas é da mesma edição e tem esse anúncio desse shape clássico do Tommy Guerrero. Achei que seria legal colocar aqui sem motivo. (Reprodução Thrasher)

 

Resposta da Thrasher, só pra constar:

 

“Aqui está um pai que lê a revista antes de falar. Obrigado pela carta, Paul. Mas lembre-se que não é só o vocabulário e o comportamento que conquistam respeito. Se os skatistas tivessem o mesmo dinheiro e poder político de tenistas ou esquiadores, teríamos pistas de skate do tamanho de campos de golfe.”

 

E aí? Acha que Paul estava certo? Isso tudo se aplica ao skate atual? Você acha que devemos nos adaptar? Estudar o dicionário? Será que Paul ainda está vivo ou já era um velho morimbundo quando mandou a carta? Será que ele anda (ou andou) nos milhares de bowls de Oregon? Aaaaaah, quantas dúvidas.

Share