Black Tapes - 20.12.2017 Cria - 19 Gramas


O terceiro vídeo da marca goiana Cria, que você assiste abaixo, chama-se 19 Gramas, alusão ao maior acidente radioativo do mundo fora de uma usina nuclear, ocorrido na cidade em 1987. Uma marca que movimenta a cena de Goiânia, feita por skatistas que realmente passam os dias juntos e fazem seu próprio game. Existe skate do bom fora dos grandes centros, e em muitos aspectos ele está à frente. Conversei com o Ademar Badê, criador e chefe da porra toda, e com o Guega Cervone, que trocou Cubatão e São Paulo por Goiânia e agora é parte da gangue. Acredite: conhecer as ideias dos caras acrescenta bastante na hora de assistir ao vídeo. Então assista e conheça um pouco melhor uma das marcas mais verdadeiras do Brasil.

 

Texto e entrevista por Felipe Minozzi (Fel)

 

 

Dá pra ver que a Cria é uma parada bem pessoal, todo mundo do time é muito próximo. Como surge a decisão de trazer alguém pra marca?

 

Badê: Esse é o bagulho mais da hora, na real. Eu sempre filmei, os caras falam: “O Badê tá sempre com a câmera na mão. Vamos sair, vamos andar, tá com a câmera? Filma essa minha!”. Em 93, por aí, juntamos um monte de VHS e, editando com dois vídeos cassetes, a gente fez o  Dirt 1 e o Dirt 2. Aí morei um tempo fora, passou pras Hi-8, compramos uma fisheyezinha 0.42x, aí foi até o 3CCD, tive uma TRV900… Aí fiz o Desandar, em 2010. Pra esse vídeo, fizemos uma festa. Depois, com o dinheiro dessa festa… Ganhamos seis paus e meio nessa festa, mano! Paguei minhas contas, tava quebrado, tinha três anos de Maria Luiza — minha filha — e compramos uma Canon HV40, que era HDV, com uma Opteka, fisheye, 0,37x. Em 2011, “quero fazer shape”; beleza, vamos fazer shape. Começamos a Cria. E a marca sempre movimentou esse círculo de amigos… Na época, é legal falar, eu criei uma série de vídeos que se chamava Cria Amigos. Uns 20 vídeos de um minuto e meio, dois, só com a rapaziada que eu tinha imagem de tanto filmar. E aí começaram a vir até de Brasília pra fazer um Cria Amigos, mano. E a marca acabou ficando baseada nisso. Todo mundo falava: “Ah, é um monte de amigo que se juntou numa marca”. Só que foi tomando uma certa proporção. Aí veio o Sucra, o Vagner, o Vitinho, o Guega mudou pra Goiânia, veio trampar na Ambiente. Com o Guega foi assim: a gente começou a fazer algumas sessões juntos, tipo: “Vamos testar esse maluco de Cubatão, ver qual que é a dele, levar ele nos piores picos de Goiânia pra ver se rende”. Aí ele acabou surpreendendo, aguentou os loucos, a gente viu que ele bebia mais que nós, então…

 

Guega: Não, mano. Tem a gangue dos coroas aqui. Aí o Badê me buscou no trampo num sábado, primeira sessão, e eles ficavam me levando nuns picos que eu ficava: “Nossa, mano, sério que vocês andam aqui?”. O último que eles me levaram não tinha nem chão, era uma terra batida na volta. Aí o gordinho lá, o Guigui, falou: “Não, já dei ollie aqui”. Eu falei: “Mentira, não tem como”. Ele falou que já deu, eu falei: “Beleza, então vou dar uma aqui também, mano”. Aí acertei a manobra e os caras consideraram. Foi aí que eles falaram: “Pode andar com nóis”. Hahahaha!

 

Badê: Mas é isso. Todo mundo aqui tem uma certa cumplicidade, entendeu? A gente tenta acolher todo mundo de uma forma positiva, mesmo passando alguns venenos. Mas você acolhe de outra forma, né, mano? Estando junto, andando junto.

 

Guega: Isso é bem real. Antes da Cria entrar na Keep Pushing, a distribuidora, ficou um tempo sem ter shape, tá ligado? Mas nunca ninguém deixou de sair pra andar, pra filmar, vestir a camisa, estar junto. Não adianta você ganhar seu material, pegar a sua cota de quatro, cinco, 10 shapes por mês e não receber uma atenção dos caras, como pessoa mesmo. O Badê me busca em casa, fica duas horas embaixo do sol comigo, filma a linha, compra uma cerveja pra gente tomar e me deixa em casa depois. Se eu preciso falar dum problema da minha vida, troco ideia com ele. Então, assim… Isso forma um contexto que já deixa de ser uma marca, tá ligado? E com todo mundo é assim, por isso todo mundo veste a camisa.

 

Cria - 19 Gramas - Arthur - Flip (Kiron Marques)

Arthur, flip. (Kiron Marques)

 

E quem tá de fora vê bem isso, é real. Isso transparece quando é verdadeiro. Isso é importante.

 

Guega: Não é pelo shape, pelo dinheiro. É só pelo que é, tá ligado?

 

Badê: Você falando isso agora, lembrei do que o Adonis (Perfeito, da Costume) falou uma vez pra mim: “Uma das melhores partes no Província são os créditos. É a coisa mais acolhedora que eu já vi, mano. Como você consegue fazer isso?”. Eu falei: “Só não desliga o rec, pai. É só não desligar a câmera, mano. O cara acertou a manobra aqui, você vira pro lado e vai estar aquela banca, todo mundo ali.” Esse sentimento que a gente tem um pelo outro é a coisa mais real. A gente passou esse veneno na marca um tempo, ficamos sem shape, mas os vídeos mantiveram a marca viva. Aí troquei de fábrica, foi bom no final. Mas isso que é foda: pode vir quem for andar pra marca, eu não consigo mandar embora esses caras que estão hoje.

 

Isso é muito foda, mas deixa eu perguntar. Todo mundo gosta de ficar junto, mas ninguém quer ficar junto na merda, né? Como vocês fazem pra equilibrar a amizade e o trampo, o business mesmo? Isso também é importante quando você tem uma marca.

 

Badê: Eu depositei muita grana na marca, mas nunca pensando no retorno. Era um hobby, só que o negócio pegou, de certa forma. Aí, quando o Guega entrou, ele já chegou pensando: “E aí, mano? A Cria é uma referência em Goiânia. Como a gente vai conduzir isso?”. Me influenciou a pensar mais esse lado.

 

Guega: Pensar que tipo, não adianta você fazer 150 shapes, dar quatro shapes pra cada um da marca; o shape custa R$40,00, você gastou R$2.000,00 em shape e vai ter um lucro de R$9,00 por shape, tá ligado? Você tá tomando ré, tem que pensar como business pra manter a marca aberta. Não é nem pra ganhar dinheiro, mas pra sustentar o negócio.

 

Cria - 19 Gramas - Guega, Arthur e Badê (Kiron Marques)

Guega, Arthur e Badê (Kiron Marques)

 

É, porque se um dia a marca acaba, vai todo mundo pra baixo junto.

 

Guega: Sim, e se um dia o Badê acabar com a marca, a gente vai continuar filmando, andando junto. Mas a gente gosta da Cria, a gente gosta de ideia, de falar “vamos fazer um shape assim” e fazer, tá ligado?

 

Badê: Mano, os caras fizeram um shape pra mim! 40 anos de idade, nunca corri nada e tenho um shape em minha homenagem! Hahaha! O Barata tem shape; todo mundo pergunta: “Ele é pro?”. Se ele quisesse, seria. Mas ele não quer, mano. Então tem o shape em homenagem ao Barata, tem em homenagem ao Vitor, o Garavelo Hero… A gente trabalha mais nessa linha mais pessoal mesmo. Às vezes, o pessoal fala que isso é errado de colocar e tal. Mas é o que a gente pensa! A gente vai colocar. “Ah, mas o game não é assim”. Mas a gente não tá no game, é um hobby! Minha filha tá aqui comigo, acabei lembrando do motivo do nome da marca: “Aqui se faz, aqui se cria”. Tudo que você desenvolve é uma criação, mas você tem que cuidar daquilo também, né? A Cria é isso, uma coisa de amigo que todo mundo cuida. Esse cuidado às vezes envolve dinheiro, e dinheiro não leva desaforo pra casa.

 

Cria - 19 Gramas - Vitor, bs feeble (Ademar Badê)

Vitor, bs feeble (Ademar Badê)

 

E a cena de Goiânia? Fala um pouco dela, é legal pra quem não conhece.

 

Badê: Eu sou suspeito pra falar, eu amo Goiânia. É melhor o Guega falar. Ele tá aqui há três anos, viveu tudo que vocês estão acostumados aí em São Paulo. Aí são 30 milhões de pessoas, aqui são três. Fala aí, tio Guega.

 

Guega: Eu colava direto aqui, achava a Ambiente massa. Vinha pra ficar uma semana e ficava um mês. Foi rolando uma sintonia. O que eu acho massa daqui é o ritmo, que é totalmente diferente de Sampa. Eu moro a 700 metros do trabalho, venho de skate pra cá. Não tem aquele lance de “vou ter que marretar, colar no pico e dar uma muito foda, porque senão os caras vão me tirar”. Você precisa sempre ficar superando, tá ligado? Aqui parece que é mais puro, divertido, rola mais natural.

 

Badê: A maioria dos nossos vídeos são filmados nas sessões de skate. Até tem as missões, quando o cara não voltou a trick na sessão, a gente volta pra filmar. E eu ando de skate aqui há 30 anos, posso falar que a cidade tá na melhor fase de pico que eu já vi. Brotou um monte de pico. Eu fui corretor de imóveis aqui durante oito anos, então eu conheço a cidade.

 

Cria - 19 Gramas - Badê (Kiron Marques)

Badê (Kiron Marques)

 

Porra, isso é bom, hein?

 

Badê: É uma vantagem. E outra coisa: eu vi muita gente boa começar a andar aqui em Goiânia e parar na adolescência. Cara que era pra estar no game, aí em Sampa, bombando. Mas casou, fez 10 filhos, foda-se o skate. E era cara que podia ser profissional facilmente. Já vi muita gente parar, e eram os melhores skatistas que já vi na minha vida. Apesar de ter visto a maioria dos vídeos de skate dos anos 80, minha influência são os meus amigos. Mas os caras param; param pra beber, pra constituir família, pra montar empresa, não querem saber do game. A maioria aqui não quer muito saber do game. Não tem essa frustração de não dar certo no game, porque eles não estão no skate pra dar certo, não querem entrar na Red Bull.

 

Guega: Mano, o carro que a gente vai pra sessão é a Doblò da empresa de filtro do Badê, sem banco atrás. É um camburão! Hahaha! Eu vou na frente porque eu sou VIP, tá ligado? Hahaha!

 

Badê: É, então… O nome do Província (vídeo de 2016) vem disso, a gente não quer saber do game. É uma visão mais provinciana mesmo.

 

Guega: Não, não é que não quer saber do game, é que é outro game. A gente faz o nosso game e tá feliz. Não deixa de ser um game, a gente vende produto. Mas é do nosso jeito. E acaba até cutucando gente por aí; eu falo pro Badê que ele tá cutucando os caras, mesmo que sem querer.

 

Cria - 19 Gramas - Barats, fs flip (Kiron Marques)

Gleybson Felipe “Barata”, fs flip (Kiron Marques)

 

É, hoje em dia a identidade é essencial. Se você não tem uma, vira mais um na multidão, tem muita gente fazendo tudo. Mas quero falar mais dos vídeos. Por que você acha que ainda vale a pena fazer vídeos maiores hoje em dia?

 

Badê: Aqui a galera não tem muita essa coisa de… Acho que posso falar que é essa coisa de ego. De falar: “Achei um pico, vou filmar essa aqui e já soltar porque, se eu não fizer agora, vai vir um mano e dar uma mais foda”. Goiânia não tem muito isso, esse “trampo de Insta”. Até tem gente que faz, mas a gente não participa desse tipo de coisa, entendeu? A gente gosta de soltar os full videos. O Guega aqui, por exemplo; ele não trampa o Insta dele.

 

Guega: Eu trampo, eu trampo. Sou trabalhador do Instagram, vários likes. Ponho várias selfies, tá ligado?

 

Badê: O Black coloca as coisas da marcenaria, o Juliano é só foto dele e da mulher dele. Não tem muito isso. A gente filma a sessão, guarda, e as sobras vão pro Insta, quando os caras não acham que é farofa, senão nem pra lá vai. Mas aqui na city todo mundo gosta do full video. Qualquer première que você faz aqui lota. O Henrique acabou de soltar o vídeo da Simple, A Rua É Nossa Casa, 10 anos de marca. Mas os manos da marca dele já trampam o Insta, a gente não trampa. O Guega trampa na Ambiente, eu trampo a AquaLivre, o Barata trampa na fábrica.

Guega: Não, eu posto sim, sai fora.

Badê: Posta, mas é muito pouco.

Guega: Não, eu trabalho sim. Eu trabalho.

Badê: Mas se ele der um nollie crookinho na rua, vixi! Guarda, pelamordeDeus!

Guega: Não, né, aí não. Nollie nosinho no meio-fio, psst! Badê, segura! Haha! Mas a gente comenta isso, tem cara que deu switch kick crooked e soltou no Insta, acabou ali a graça. Podia soltar numa parte, podia dar no meio-fio, é um switch kick crooked, mano! Soltou no Insta, já era, o impacto já foi.

 

Cria - 19 Gramas - Guega Cervone, fs nollie ss crooked (Ademar Badê)

Guega Cervone, fs nollie ss crooked (Ademar Badê)

 

É, se você for pensar, dá pra sair o vídeo e depois soltar no Insta tranquilo, é só ter calma.

 

Guega: Exato, espera um pouco. Mas aí também é cobrança das marcas, né, mano…

 

Badê: É, eu não cobro isso deles.

 

E esse vídeo agora, cheio de inserts de guerra, bomba nuclear, cogumelos atômicos… Parece que tem alguém que gosta do tema aí.

 

Badê: Eu ainda não tinha explorado, de forma satisfatória, os temas dentro dos vídeos. Quando eu criei esse tema, decidi criar essa aura, não só do acidente nuclear que dá o nome pro vídeo, mas mostrar a criação da bomba, Oppenheimer, Projeto Manhattan, Dokuchaev, Guerra Fria, coisas que o Trump tá relembrando com essa corrida armamentista que ele tá tentando criar. Tenho um monte de livro aqui sobre tudo isso, eu gosto. O negócio aqui em Goiânia foi sinistro, faz 30 anos do acidente. Os catadores acharam uma cápsula com 19 gramas de Césio 137 em uma clínica abandonada e abriram, se contaminaram, venderam, foi ficando aquele rastro de contaminação. Até tomarem providências já tinha contaminado bombeiro, gari, uma galera. E o governo da época ainda tentou enganar, falando que foi vazamento de gás… Foi sinistro.

 

Cria - 19 Gramas - Barats (Kiron Marques)

Gleybson Felipe “Barata” (Kiron Marques)

 

E no vídeo de skate a pessoa não vai aprender essas coisas, mas acho que foi o Murilo (Romão) que falou uma vez: ninguém vai aprender ali, mas quem se interessar vai atrás, é a porta.

 

Badê: Isso. É um vídeo de skate? É. Mas eu me dediquei a colocar o tema bem forte ali. É um assunto que eu gosto. Tipo, eu gosto do GX1000, mas é skate cruzão, só os caras andando. Já o Colin Read sabe fazer isso melhor que o Ryan Garshell.

 

E sobre HD e VX? Como você decide como vai ser o próximo vídeo?

 

Badê: É simples: qual é o equipamento que tá tendo? Se tiver o equipo a gente faz; se não tiver, corre atrás. Terminou o Província, a gente tava sem câmera, me empolguei com o shovão do Guega, surgiu um kit com a DVX, bolsona, fisheye, barato. Eu não ia conseguir nem o corpo de uma HD com essa grana. Comprei. Pra mim não tem um formato. Não é 8 ou 80, Colin Read ou Ty Evans. Mas até o Ty Evans… Pega o Fully Flared. É VX, caralho!

 

Então você não é xiita da VX?

 

Badê: Não, não sou Estado Islâmico da VX, não. A gente filma com o que tiver que filmar. Eu gosto do DV mas, na real, eu não tenho nem computador pra poder filmar de HD. Passei mó veneno agora pra editar esse. Quase perdi tudo. Culpa do Guega que não me dá um computador novo, nem de Natal.

 

Guega: Caralho! Hahaha! A gente veio gravar isso aqui com você hoje, ele perguntou: “Pode tirar da tomada o computador?”. Eu falei: “Lógico, não é a bofera do seu computador, pode tirar da tomada que ainda funciona duas horas”.

 

Badê: Meu computador tá sem bateria tem seis anos.

 

Cria - 19 Gramas - Vitor, bs smith (Ademar Badê)

Vitor, bs smith (Ademar Badê)

 

E os próximos, pra deixar prometido aqui?

 

Badê: Pode falar, né, Guega? Vou fazer um vídeo da Ambiente, de 15 anos de loja. Também tem o Arthur, sangue novo, moleque bom, vamos arrancar o couro dele, trabalhar.

 

Guega: Nossa, o maluco tá aqui andando no bowl desde às duas da tarde (eram 22:30), não aguento mais ver ele andando nesse bowl.

 

Mano, você tá um velho.

 

Badê: O Guega tem 29 anos, mas já entrou no status de Brian Wenning. Tipo assim: “Guega, a gente tem um mês pra terminar o vídeo, mano”. O mano resolve dar aquela Brian Wenninzada. Saindo todo dia, breja todo dia, sanduba todo dia, pizza todo dia.

 

Guega: Mentira, mano. Só correria mesmo. Trabalhando pra caralho…

 

Badê: Correria… Eu olho pra ele e falo: “Tá bochechinha, hein, pai?”. Hahaha!

 

Cria - 19 Gramas - Badê gravando (Kiron Marques)

Badê gravando (Kiron Marques)

 

Agradecimento em final de entrevista de skate sempre me irritou muito, nunca tive saco de ler e fica parecendo que é a última entrevista do cara, então não vou pedir pra vocês agradecerem ninguém.

 

Guega: Quero mandar um beijo especial pra Sasha e pra Xuxa.

 

Badê: Por favor, não esquece de uma coisa, mano. Por mim. Brian Wenning, mano.

 

Cria - 19 Gramas - Vitor, switch bs noseblunt (Ademar Badê)

Vitor, switch bs noseblunt (Ademar Badê)

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