Jetlag - 17.01.2018 Por onde anda Chris Haslam?


Alguns skatistas dão a cara pra marca, e alguns são definidos por elas. Chris Haslam, no entanto, é um pouco dos dois. Esteve na Almost desde seu começo, e sua seleção de manobras divertidas-técnicas-cabreiras no Round 3 e Cheese and Crackers tornaram-se uma assinatura tanto pra ele quanto pra Almost. A marca solidificou sua imagem com as artes nunca tão sérias e skate absurdo de caras como Daewon Song e Rodney Mullen, mas Chris estava no coração de tudo. Então, quando Chris deixou seus dois principais patrocinadores, Almost e Globe, me perguntei pra onde ele iria. Ele era tão ligado a essas marcas que era difícil imaginar ele em qualquer outra marca. Eu via seus posts ocasionais de Barcelona no Instagram, mas nada de novos patrocinadores. Depois de alguns meses sem notícias, o procurei pra saber o que ele vai fazer da carreira. Falando de skate, o futuro do Chris é tão embaraçado quanto sua barba.

 

Intro e entrevista por Larry Lanza (Jenkem) / tradução por Felipe Minozzi

 

Chris Haslam (reprodução Jenkem/Dwindle)

Foto: reprodução Jenkem / Dwindle 

 

 

Você meio que jogou uma bomba com aquele post do Instagram, dizendo que estava saindo dos seus dois maiores patrocinadores, Almost e Globe. Por que você fez desse jeito?

É. (risos) Não fiz desse jeito de propósito. Financeiramente, foi uma merda. Mentalmente e pro meu skate, foi bem melhor. A Almost estava indo pra uma direção diferente da que eu queria. Não que eu tivesse uma posição de gerência lá, mas eu era muito ligado à marca por estar lá desde o começo, com Daewon, Rodney e o Cooper. Eu sentia que era tudo criação nossa, mas não podia fazer nada pra empurrar aquilo pro caminho que eu queria. Pra ser justo, eu nunca tive um plano de verdade. Eu só chegava lá e tipo: “Devíamos usar melhor o tempo”, e eles diziam: “OK, então o que a gente faz?”. Tenho certeza de que, se eu tivesse uma ideia pronta, eles ouviriam, mas eu não conseguia pensar em nada. Aí eu me cansei da situação e achei que seria melhor sair. Com a Globe, eles estavam cortando os salários dos skatistas e, quando cortaram o meu, eu estava no meio da renovação de contrato, então saí.

 

E pode onde você anda agora?

Estou morando na Espanha há um ano, só andando de skate. Queria andar de skate e filmar sem maiores obrigações, e decidi que o melhor lugar pra fazer isso seria Barcelona.

 

Já arrumou outro patrocínio de shape desde que saiu da Almost?

Quando saí, mandei mensagem pra duas ou três pessoas e deixei eles pensarem sobre isso. Eles não pensaram muito tempo (risos). Disseram que queriam se concentrar mais nos caras mais novos que estavam surgindo. Desde então, não tenho feito muita coisa além de andar de skate e filmar. Eu quis aproveitar meu tempo esse ano, ao invés de me preocupar com o futuro. Obviamente, preciso pensar nisso logo, mas esse ano foi só pra andar de skate, livre de compromissos com marcas de shape e tênis. Estive ligado com as mesmas marcas por tanto tempo, que pode ser difícil pra outras marcas tentar realocar meu nome em outro lugar.

 

 

Já que você está sem patrocínio agora, você acha que o Instagram mudou a forma como os skatistas patrocinados conseguem reconhecimento?

As redes sociais, de verdade, sugam a minha própria motivação pra fazer algo pra uma vídeo parte, porque a qualquer segundo do dia você olha o Instagram e vê coisas ridículas. Eu sabia que o jeito de fazer as coisas mudaria, mas não achei que fosse acontecer tão rápido. Tem caras fazendo um solinho na frente de casa que tem seguidores na casa dos cinco dígitos. Aí eu fico: “Quê que eu tô fazendo? Estou me matando nessa manobra e ninguém vai nem ligar. Alguém vai ver aquilo durante dois segundos no Instagram e acabou. Onde está o valor nisso?”. Tem sido uma luta achar alguma motivação real e inspiração pra filmar, porque eu quero me dedicar a algo que tenha valor.

 

As garotas reclamam da barba?

(risos) Não. Nesse estágio, as garotas não estão tão a fim de mim. Elas gostam de mim só quando tem algum tipo de fetiche estranho com barba. Não sei se você já tentou chegar num garota tendo uma barba grande ou um bigode mas, se elas gostam disso, elas já caíram na sua antes de você abrir a boca. Ou não querem de jeito nenhum por causa da barba, o que acontece 90% das vezes. Os outros 10% não ligam se você é gordo nem nada disso, é só ter a barba que tá tranquilo. (risos)

 

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Qual o maior tempo que você ficou sem tirar a barba?

Provavelmente, dois anos. Geralmente, eu me barbeio uma vez por ano só pra ver que eu não tenho covinha no queixo (risos). Meu amigo Jesse se barbeia uma vez por ano e a barba dele chega a um metro. A velocidade de crescimento depende do que você come e de quão estressado você está. Acho que ele nunca se estressa. A minha está crescendo bem rápido esse ano, talvez porque eu não tive nenhum prazo ou que tirar foto pra anúncio. Fiquei só hibernando nas ruas de Barcelona.

 

Já tentou esconder alguma coisa na barba pra passar pela fronteira?

Não, eu não, mas um amigo meu costumava esconder o baseado pra passar pela segurança do aeroporto. Ele escondia atrás da barba e nunca foi pego. É a única história que sei de alguém que tenha feito isso, mas eu nunca fiz. Não tenho nada a esconder de ninguém. Eu não fumo maconha, não uso droga nenhuma.

 

Chris Haslam (reprodução Jenkem/Dwindle)

Foto: reprodução Jenkem / Dwindle 

 

Muitos dos seus shapes pela Almost tem super-heroínas na arte. É um fetiche?

(risos) Eu tinha uma relação de trabalho muito próxima com o Eric Wollam, diretor de arte da Almost, então ele sabia que eu gostava disso. Depois que fiz o da Mulher-Maravilha, quis continuar no tema, então fiz o da Mulher-Gato, Cheetara e tudo mais. Não tenho quadrinhos de super-heróis, mas gosto dos filmes. Eu até tento ler alguma coisa, mas preciso estar realmente interessado.

 

Que tipo de livro você lê?

Tem uma época das lutas do WWF, provavelmente de 88 a 96, a era de ouro. Todos aqueles lutadores tem autobiografias, e eu tenho todas. Eu praticamente joguei fora todos os meus outros livros pra abrir espaço pra essas autobiografias de lutadores. Até certo ponto, eu me identifico com muita coisa que tem ali. Não que eu tenha muita história de festa e pílulas, mas o stress é bem parecido.

 

Qual é seu lutador favorito?

Macho Man Randy Savage. Eu não ligo pra essas lutas de hoje em dia. Se você cresceu acompanhando o começo de tudo, as de hoje parecem mais um reality show. É terrível. Os personagens da época eram da hora, mas agora eles tem nomes horríveis. Embora houvessem coisas horríveis, como o Million Dollar Man, Ted DiBiase, e aquela parada totalmente racista com o Virgil, motorista dele. E o Ultimate Warrior. Quanto mais eu assisto e leio sobre ele, mais terrível acho que ele era. Uma pena, porque ele era um dos melhores personagens. É como conhecer seu profissional favorito e descobrir que ele é um imbecil. Tipo: “Porra, eu comprei todos esses shapes do cara e agora ele me trata assim”. Nunca conheça seu ídolo, porque você só vai se desapontar. Eu tento não agir assim. Se alguém gosta do meu skate, ser um imbecil dá muito mais trabalho do que ser legal.

 

Já vi você interagir bem com skatistas mais novos, parece fácil pra você.

Não é tão difícil não ser um babaca com a molecada. Nós somos colocados numa posição onde as crianças te veem como exemplo, você gostando ou não. Ás vezes, é só acenar sem falar nada. Eu li que, quando os músicos começam a ganhar dinheiro e não precisam se preocupar com mais nada, a idade mental se mantém próxima ao que era quando eles começaram a dar certo. A pessoa pode ter 38 anos e ter a cabeça de 17, 14 anos. Eu conheci profissionais que não conseguiam nem comprar uma passagem de trem sozinhos, o que é um absurdo. Eles se apoiavam tanto nos team managers que nunca amadureceram.

 

Chris Haslam (reprodução Jenkem/Dwindle)

Foto: reprodução Jenkem / Dwindle 

 

Tenho certeza que você ouve muito isso, mas é meio louco que uma das manobras mais memoráveis do Almost Round 3 seja o seu blunt em outro skate.

Sabe o que é mais louco? Eu nem queria aquilo na minha parte. Quando o vídeo saiu, eu não entendia porque as pessoas gostavam daquilo. Mas acabei percebendo que é porque é algo alcançável pra todo mundo. Você pode fazer isso na sua rua e não precisa se matar tentando se divertir. Aquilo mudou minha maneira de pensar sobre como filmar e o que colocar nas partes, só pela percepção de que não precisa ser algo que desafie a morte pras pessoas gostarem. Você só precisa fazer as pessoas curtirem a manobra. Talvez eles nunca tenham visto aquilo, ou você só precise abrir a porta pra eles verem que podem dar uma manobra no skate de outra pessoa, ou fazer algo tão fácil quanto.

 

O que você vai fazer se não arrumar mais nenhum patrocinador?

Eu penso muito nisso, especialmente estando numa profissão que, geralmente, tem uns cinco anos de vida útil. Eu já vivi 17 anos como skatista profissional e é muito mais do que poderia esperar. Me fez ser quem eu sou hoje. Tenho amigos que foram profissionais e agora trabalham na indústria, então eu poderia me colocar ali, em alguma posição dentro de uma marca. Ou poderia largar tudo e virar jardineiro. Não é o Brandon Westgate que tem uma fazenda de arando? Acho isso foda! Não conheço ele muito bem, mas só isso me faz gostar muito dele. Não me oporia a algo desse tipo se surgisse a oportunidade. Ou então vou fazer sorvete, tipo Ben & Jerry´s.

 

17 anos de skate, e direto pro mercado de sorvete?

É, quero dizer, o skate é um lugar estranho pra mim, no momento. Não sou mais um dos moleques novos e fiquei nas mesmas marcas por tanto tempo que pode ser difícil pra outras marcas abraçarem meu nome. Não tenho ideia de qual vai ser meu próximo passo. Ainda tenho energia pra gastar, mas também preciso de dinheiro entrando. Não estou chateado por ter vivido 17 ou 18 anos basicamente sem emprego. Conseguir alguma coisa no skate é impressionante, mas poder dizer que fiz isso é mais recompensador do que não conseguir patrocínio agora. Eu fiz tudo, e até mais, do que podia no skate, então tô curtindo passar esse ano tranquilo. Ficaria feliz de arrumar novos patrocínios, mas se o mercado acha que não dá mais pra mim, não me sinto triste de começar a nova fase.

 

entrevista por Larry Lanza – Jenkem

tradução por Felipe Minozzi (Fel)

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