Black Room - 19.01.2018 Not Landed - Parte 3


Chegamos à terceira edição da Not Landed, série que mostra as fotos que ficaram armazenadas em nosso HD porque o skatista acabou não voltando a manobra. Nem sempre existe um motivo especial, mas estou aqui pra contar como foi a sessão e as dificuldades que rolaram.

 

texto e fotos por Caetano Oliveira

 

Diego Wanks - Ollie - Not Landed 3

Diego Wanks, ollie.

 

Não lembro exatamente qual era a finalidade dessa foto, nem porque ele tentou esse fs ollie gigante caindo numa descida monstra. Não sei se estávamos fotografando pra alguma entrevista ou se só estávamos na Avenida Paulista de skate e ele resolveu se jogar.

 

O que sei é que era bem complicado acertar. Ele tentou algumas vezes, mas acho que não chegou perto de acertar. Lembro que estava deitado fotografando e, do nada, apareceu um rato correndo e saltou por cima de mim. Não que isso tenha alguma coisa a ver, mas foi a parte mais emocionante do dia, ou da minha vida.

 

Depois que a foto estava pronta, tentei mostrar pro Diego, ver o que ele achava. Na época, achei legal a foto; tentei mostrar justamente para ele voltar lá e acertar a trick. Ele desconversou e, até hoje, nunca mais falamos nesse assunto.

 

Duzinho, fs grind - Not Landed 3

Duzinho, fs grind

 

Não sei se esse spot ainda existe. Sei que, na época, era moda ir andar lá. Estava na sessão com o Duzinho e ele começou a tentar esse fs grind cabreiro; o muro era bem alto. Na verdade, qualquer manobra ali era complicada, porque tinha que vir numa subida extrema pra poder chegar no topo do wallride. Alguns conseguiram essa façanha, mas muitos que andaram aí ficaram no “quase”. Nesse dia, ele não acertou. Ficamos de voltar lá pra tentar de novo porque eu curti a foto, mas depois de um tempo cortaram o muro pela metade. Aí soubemos que essa foto já era, não poderia ser usada.

 

Gustavo Andrade, ollie (Caetano Oliveira) - Not Landed 3

Gustavo Andrade, ollie.

 

Esse pico ficava no Butantã. Ficava, porque não está mais entre nós; pouco tempo depois dessa foto fecharam o terreno. Era tipo uma concessionária abandonada; durou até que bastante tempo. Muita gente ficou sabendo e acabou indo andar lá. Na parte de trás tinha um espaço gigante, só que todo fodido, cheio de vidro. Na frente, tinha esse gap ridículo de cabreiro, além de um cano.

 

O Gustavo já tinha fotografado comigo uma vez, e tinha me impressionado bastante. Mas, quando falou pela primeira vez que ia tentar um ollie ali, achei engraçado. Não sabia que estava falando sério. Montei todo o equipamento e ele tentou a primeira. Acho que já caiu em cima, fiquei feliz e vi que poderia acertar de verdade. Aí ele tentou mais umas vezes e quebrou o shape. Nessas, acabou se machucando e ficamos de voltar depois. Eu tinha curtido a foto, mas logo fecharam o lugar pra reforma e não deu pra voltar.

 

Rafael Alves, bs overcrooked (Caetano Oliveira) - Not Landed 3

Raphael Alves, bs overcrooked.

 

Mesma história do Gustavo Andrade. Mesmo pico, mesma sessão, mas no cano. O Bisteca (apelido do Rafael) já tinha voltado um bs lipslide e estava tentando esse overcrooked. Já tínhamos ido uma vez lá e, dessa vez, estávamos com uma banca junto; ele tentou bastante, chegou a cair em cima do skate, mas não rolou. Estava confiante, sabia que ele poderia voltar essa. Mas, logo na semana seguinte, eles fecharam o lugar pra reforma.

 

Alex Lekinho, fifty (Caetano Oliveira) - Not Landed 3

Alex Lequinho, fifty.

 

Eu sabia desse pico na Vila Madalena porque já tinha fotografado o Mário (Hermani) Romário dando um flip por cima, aí pensei em levar alguém pra andar na borda. Estava procurando uns picos com o Lekinho no carro e lembrei desse. Ele ficou até assustado porque era muito difícil, não tinha saída a borda. Tinha que arrancar pro lado.

 

Não lembro exatamente se ele chegou a correr algum, ou mesmo se chegou a cravar o fifty, faz realmente muito tempo. Mas lembro dele colocar o skate na borda e dropar. Nisso, eu fiz a foto pra poder ver a luz e também mostrar pra ele, dar uma motivação pra tentar de verdade. Não adiantou muito, ele não chegou a tentar e ficou por isso mesmo, mas a foto tá aí. Você diria que não é um acerto?

 

Por isso, existe essa ética no skate. No surf, por exemplo, o cara pode tentar um aéreo, errar, e a foto é publicada. No skate, tem que ter a prova, de um jeito ou de outro. O legal é ver a foto e esperar o vídeo, ou vice-versa. Quantas pessoas já agiram errado numa situação como essa, em que o cara nem chegou a tentar pra valer a manobra e a foto é publicada? Existem fotógrafos, skatistas e editores de mídia que fazem isso; sei de alguns casos e já aconteceu com material que eu produzi. É preciso sempre prestar atenção e saber quem está lidando com as fotos. O mais importante é ter bom senso. Imagina uma capa de revista com manobra não acertada? Isso já aconteceu aqui no Brasil. Todos que estão batalhando de verdade e se sacrificando se sentem traídos. Um dos pontos máximos da carreira de um skatista, a capa de revista, se torna um fiasco. Por isso, acho importante esse debate. Nós, skatistas, fazemos o skate. O rumo que ele vai tomar depende de nós.

 

Deixe seu comentário sobre alguma sessão que acabou não dando certo, ou sua opinião sobre essa tão importante ética fotográfica. Abraço!

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