Black Room - 30.05.2019 Zonzo - Flanantes


O mais novo vídeo dos Flanantes é o Zonzo, e tem tudo que você espera: muito skate, muitos skatistas, muito pico legal, trilha sonora das boas… O vídeo tá no final desse post. Pra lançar do jeito certo, convidamos Murilo Romão e o fotógrafo Moisa (a.k.a. Constantine) pra trocar uma ideia sobre como foi realizar esse projeto. Também pedimos pro Moisa mandar aquele WeTransfer recheado de fotos feitas durante as sessões pro vídeo. Confira tudo abaixo:

 

entrevista por Felipe Minozzi e Marcelo Mug | fotos por Moisa

 

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Black Media: Da onde vem o nome do vídeo, qual o conceito por trás dele, e como ele se mistura com o skate?

Murilo: Zonzo, o nome do vídeo, tá no fim do livro Walkscapes, do arquiteto Francesco Careri. Walkscapes ia ser o nome do vídeo, mas a ideia fica pra depois, sei lá. No fim desse livro, ele fala dessa “cidade” de Zonzo. Fala que na Itália tem essa expressão, “andare a zonzo”, que falam pras crianças… É tipo andar a esmo. Tipo flanar, é meio que a mesma coisa. E ele fala que Zonzo é uma cidade na qual você transita de outro jeito, se perdendo. Esse cara fez uma caminhada que chama Stalkers, nos anos 90, ele dá aula na rua, nas periferias de Roma e tal… E a relação com skate é essa aí, um jeito de encontrar lugares novos, que tem a ver com os nossos outros vídeos também. Só que é mais contemporâneo; esse cara tá vivo, na ativa. Os temas dos outros vídeos vem de referências mais antigas. O “flaneur” é de quando surgiu o capitalismo, o Situacionistas é anos 50, Deambulações é lá pelos anos 60… Esse é mais atual, mas ele tá falando disso aí. E, no skate, é um jeito de achar lugar novo e motivar a gente a sair da zona de conforto, que são os piquinhos que todo mundo anda, né, mano? Eu não aguento mais; nasci em Sampa, não aguento mais andar nesses lugares. E eu achei o nome bom também, mais misterioso. Se você não sabe nada sobre o vídeo, pode até achar que é outra coisa, que Zonzo é um adjetivo. Aí assiste e entende que é outra fita, que ele fala no começo, de uma cidade dentro da cidade… É isso.

 

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BM: Esse é o primeiro vídeo que teve fotógrafo junto nas sessões, com o propósito de registrar tudo? Por que resolveram fazer isso junto com o vídeo?

Murilo: Foi o primeiro. Na real, eu não chamei, foi acontecendo. Os caras estavam na onda de tirar foto analógica… O Xim, que já faz foto analógica há anos, colou, fez uns testes nas sessões… O Moisés também… O Moisa eu conheço há pouco tempo, conheci ali na época do Deambulações. Aí ele começou a colar com a gente, ali na época em que a gente ia andar na (praça) Civita. Aí ele pirou de colar em todos, começou a se empolgar também, curtiu a brisa dos rolês, tudo meio perdidão mesmo… Você acha que eu ia chamar um fotógrafo? A gente nem sabia direito pra onde ia, mano. Mas aí rolou essa onda de bastidores. Achei da hora pra caralho, porque pega as situações além das tricks, né? Com as tricks já tá todo mundo acostumado, de sair na revista e tal. Achei da hora esse olhar do Moisa. Ele fez muita foto, muita, muita. Tanto que rolou fazer uma matéria na Cem, ele mandou umas pro Maia soltar no Trocando Manobras, e essas da Black Media que também são inéditas. Registrou muita coisa mesmo. E foi tudo espontâneo, nada planejado. E foi tanta foto do Moisa, do Xim, do Leandro Furini, que deu até pra fazer um zine, impresso e tal, no selo do Rodrigo, o Sob Influência.

 

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BM: De onde veio a ideia de acompanhar os Flanantes durante o vídeo? Você que quis colar? Os Flanantes pagam bem?

Moisa: Na real, eu já estava colando com os caras, andando com eles, Murilo, Apelão, Didi… Aí, quando eles começaram a fazer o vídeo, eu estava sempre com a câmera na mão e clicando. Aí uma hora o Murilo me deu um salve: “Ô, você tá fazendo umas fotos e tal, né? Já que você tá acompanhando a gente, vamos ver de fazer alguma coisa com essas fotos. O vídeo eu sempre tenho, mas foto quase nunca; quase nenhum fotógrafo tá disponível pra fazer essa parada”. Aí eu falei que conseguia me agilizar e colei sempre que deu. Foi o que rolou. Dinheiro? Vixi! Os caras pagam bem: um falafel, uma bomba, as três vezes que o Murilo bebeu, um bolinho de arroz… Era o pagamento do dia-a-dia, mano!

 

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BM: Quando você fez o primeiro vídeo dos Flanantes, já imaginava que viriam vários depois? Ou isso foi surgindo da sua afoitice, de não conseguir ficar parado?

Murilo: Eu já pensava, sim. Na real, antes dos Flanantes, no Ser do Centro, eu já vi que a galera curtia esse assunto, e eu também curtia. E quando eu tô finalizando um vídeo, já vou pensando em outras paradas, porque já entrei a fundo no tema. Tudo começa quando você descobre o assunto e vai indo, indo… Conforme o vídeo vai acontecendo, você vai se aprofundando também. Quando chega no final do vídeo, que você já editou tudo, você não aguenta mais aquele tema. Então, quando eu estava terminando o Flanantes, já estava lendo sobre o Situacionistas, e por aí vai. Um assunto puxa o outro, tá ligado? Tipo assim, você tá lendo algo a ver com o assunto e aí: “Nossa, isso aqui é interessante, mas deixa pra depois”. Aí, quando as ideias vão acabando, você vai resgatando daí. Mitos Vadios foi isso; quando eu vi o nome, achei da hora e vi que tinha a ver com skate. É isso. Mas eu acho que as ideias estão acabando agora, tem que partir pra outras temáticas.

 

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BM: Dá pra ver que você não ficou só focado nas manobras… Qual foi a linguagem que você seguiu pra registrar o Zonzo?

Moisa: Quando eu falei com o Murilo pra fazer as fotos, eu perguntei: “Você me deixa livre?” E ele falou que “sim, demorou”. É bem louco ver trick de skate, mas é que nem o Mug mesmo me falou na exposição da première, quando pegou uma foto: “Mano, só quem tá na rua vê isso”. Muitas vezes, a gente fica muito focado nas manobras e tem um monte de coisa acontecendo em volta. O lance foi esse: procurar mostrar além do skate. Porque a gente tá muito preocupado no flip, no varial flip, e esquece do sorriso das pessoas que estão em volta, observando… E antes da trick rola muita coisa, tá ligado? Eu não queria ficar muito focado na trick. Fiz uns retratos de gente que tava até prestando mais atenção que eu, que o Murilo. Eu fiquei olhando muito o que estava em volta. Tem que ter as tricks, mas foram bem poucas as que eu fiz. O skate na rua é isso: só de sair pra remar, você já tá andando de skate. O skate não é só dar flip, descer corrimão. Olha pro lado que você sempre pega alguma coisa que tá acontecendo em volta. E tem um fotógrafo de skate – agora não lembro o nome – que falou que ia fazer uma revista de skate que ia surpreender muita gente. E ele fez uma revista inteira sem manobra, só com a vivência do skate. Isso me inspirou muito, tá ligado? Às vezes, o cumprimento do acerto da manobra é muito mais louco que um kick. E eu também li algumas coisas sobre os Flanantes, e percebi que não são só as manobras que vão mostrar o que o Murilo quer fazer.

 

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BM: Qual é o propósito dos Flanantes? É só andar com os amigos, passar uma mensagem, virar uma marca multinacional… Qual é?

Murilo: O propósito, que o Fel até me zoa de crew gourmet, que é um coletivo, é trazer pra perto o máximo de gente possível. Não só os amigos, qualquer um. Quem estiver “flanando”, eu tô afim de filmar. Os caras sem patrocínio, que estão no rolê livre, for fun… Quantos caras já não fiz um rolê assim, do nada, sabe? Você tá no rolê, o cara tá andando pra caralho, aí você fala: “Ô, mano, vamos filmar aí”. Isso rola direto. E motivar os caras… Os amigos também, lógico. Mas, tipo, se eu fosse depender só dos amigos pra fazer os vídeos, acho que ia demorar bem mais pra sair. E eu prefiro esse esquema “mix”, de sair filmando todo mundo, acho da hora, dá mais espaço pra galera. Por isso, eu não considero o Flanantes uma crew. Porque, se fosse crew, seria eu, Didi, Apelão, Leo, Guguinha… E não dá, cada um tem seu corre, a vida vem vindo, os caras estão trampando pra caralho, não é todo mundo que vive de skate… São poucos, na real. Mas a intenção é essa: agregar sempre mais gente. Trazer o máximo possível. Colaboração também: os caras mandam imagem de longe, se tiver da hora dá pra usar. Além disso, é pra questionar o que tá pegando na cidade, né, mano? A gente tem participado de uns projetos, até com educação, nas Fábricas de Cultura e tal… Tá da hora, o Flanantes tá indo pra esse outro lado. Um lado mais “não-esporte” do skate. É esse caminho. E se comunicar com outros grupos da cidade também: quem faz som, quem faz festa de rua, quem pixa, quem grafita, tudo… Qualquer um que estiver causando na rua, tá junto. E a gente tenta trazer isso pros vídeos também. No Zonzo, não rolou muito, não teve muita intervenção… Nos outros, rolou mais. É um jeito de fugir do que tá sendo imposto, que é se fechar cada vez mais nos lugares.

 

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BM: Qual o nome do próximo vídeo? Première semana que vem?

Murilo: Against le corbu. Durma com essa. Hahaha! Essa é a ideia de um próximo vídeo, mas seria menor, acho. A ideia é fazer em Brasília.

 

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BM: Teve algum momento, alguma situação marcante nas sessões?

Moisa: Putz, acho que a todo momento algo chamava minha atenção. Mas quando a gente foi pro Glicério, mais fechado, centrão mesmo, eu observava muito as pessoas. Tem uma foto duma senhora, com as lágrimas… Isso marca muito, tá ligado? Quando a gente tá na rua e para pra observar as coisas em volta, fica fora de si, esquece que o mundo é padronizado, começa a ver os buracos. Tem uma foto que tirei de um senhor, que tá tudo escuro e ele tá iluminado só com o LED do Murilo. Ele estava falando sobre cinema, que trampou no cinema, que trabalhou com o Silvio Santos… Mas o que mais marcou mesmo foi a manobra que fechou o vídeo, do Didi. Nós fomos dois dias lá, eu vi o quanto ele sofreu pra dropar aquilo lá, nossa… E eu sou downhillzeiro, mano. Dropar a Campevas não é pra qualquer um, e ele dá duas sinistras: ollie 360 de front e ollie 360 de back. E a felicidade de todo mundo ali, vendo ele dar as manobras, dropar a ladeira e subir com um sorrisão… Eu virei e falei pro Murilo: “Mano, acabou o vídeo. Não tem mais o que fazer”.

 

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Assista ao vídeo:

 

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