Black Mind - 16.05.2020 Mailton dos Santos e o cano com emenda


Algumas sessões são apenas borrões na minha memória. Não consigo lembrar quem estava junto, como chegamos no pico, onde fomos antes ou depois. Sinto que algumas pastas do meu hd mental deram tilt. Mas esse dia com o Mailton dos Santos foi inesquecível. Dezenove de julho de 2008, eu e o Boca éramos jovens. Eu tinha acabado de entrar na finada Revista Tribo, louco pra produzir fotos e pautas, vivendo skate todo santo dia na rua. O Mailton era o amador do momento, skate totalmente no pé, massacrando todos os corrimãos que brotavam pela frente.

 

Texto e fotos por Marcelo Mug

 

OK 645mailton_fsgrindday_img_1971 - 2200px - by mug - 645px - okby MugMailton era menino.

 

Aquele era o último final de semana que a gente tinha para produzir fotos para a entrevista do Mailton na revista. Eu não me lembro exatamente porque, mas nesse dia fomos só eu e ele pra sessão, algo bem raro. Nos dois, a vontade de fazer acontecer e viver o skate era muito grande. Fui apresentar alguns picos na área onde nasci e comecei a andar de skate, nos bairros do Sumaré e Pompéia.

 

OK 645mailton_fsgrindday_img_1944 - 2200px - by mug - 645px - okby MugPelo menos pra uma coisa boa os bancos servem: andar de skate nos finais de semana.

 

Era final de semana, então o leque de picos era um pouco maior por causa do comércio fechado. Levei o Boca no cano do Banco Real da Avenida Cerro Corá, que tava meio na moda naquela época. Conseguimos destravar a porta do caixa e ele ficou pilhado pra andar. Como a calçada da volta era bem curta, era preciso esperar o trânsito parar pra não ser atropelado. Eu ficava no meio da avenida, esperava o farol fechar lá embaixo, olhava pra ver se não vinha nenhum carro, fazia sinal pro Mailton e corria pro cano pra fazer a foto de fisheye. Claro que não deu certo. Segurança zero, a chance de dar merda era 95%, segundo meus cálculos. Saímos fora. Colamos em mais uns picos pra ver, começou a ficar tarde e eu lembrei de um corrimão que eu sempre quis fotografar, mas pra andar não era lá mil maravilhas. As famosas arapucas que os fotógrafos sempre apresentam.

 

OK 645mailton_fsgrindday_img_1969 - 2200px - by mug - 645px - okby MugWe love portuguese rocks. Só que not. Photographer´s arapucations.

 

A informação é que naquela época só o Paulo Galera e o Gui Zolin tinham descido aquele cano, e já fazia muitos anos que ninguém chegava nem perto dele. Escada de dez degraus, pico bonito. A parte ruim: emendas de plástico no meio do cano, chão de pedra portuguesa na ida e na volta, e o segurança colava em poucos minutos. Clássico dos picos brasileiros, mais contras do que prós.

 

Mailton_fsgrindday_img_1966 - 645px - by MugEmenda não parlamentar.

 

O deadline para a entrevista tava no osso, e a luz do dia também. Mas a nossa vontade tava sobrando. Lembro da gente conversar algo como “o cano não é gigante, mas as emendas e o chão ruim vão valorizar a manobra, vai valer a pena”.

 

OK 645mailton_fsgrindday_img_1954 - 2200px - by mug - 645px - okby MugQuando o ollie não gruda só resta aquela pisada salvadora no cano. Pra poucos.

 

O fifty veio fácil. Em algumas, o ollie não colou. No total, foram dez tentativas até o grindão de front sair redondinho. O segurança do prédio apareceu pra acabar com a sessão, que ele mal sabia que já tinha acabado. Não se acaba com algo que já acabou, é como matar algo que já está morto.

 

Mailton_fsgrindday_img_1962 - 645px - by MugGrindão de front, moment 1.

 

“Eu lembro que se a gente tivesse mais uma foto, seria legal para a minha entrevista. O Mug tava se dedicando muito pra esse projeto, viu que eu tava no corre, e as ideias bateram… A gente tava na pegada de fazer um bagulho da hora. Fomos em algum outro pico antes, mas não lembro qual era. Até que o Mug me falou desse corrimão, que era perto. Passamos na frente, vi o chão ruim, as emendas, mas mesmo assim decidi ver qual era. Tentei a primeira, vi que correu e não travou na emenda. Até que foi rápido, foram poucas até o acerto, bem na hora que o segurança apareceu. Saímos dando risada na frente do segurança, o Mug me mostrando a foto e eu abraçando ele de felicidade” – Mailton dos Santos

 

Mailton_fsgrindday_img_1963 - 645px - by MugMoment 2.

 

Eu lembro exatamente disso, da nossa felicidade. Do Mailton vindo me abraçar e a gente comemorando como dois loucos no meio da rua. A sensação de dar certo no último minuto, quando tudo se encaixa na hora exata, a manobra, as cores do céu no fundo da foto, o segurança chegando tarde demais, o deadline pra entrevista. Além do acerto da trick e a foto em si, me senti feliz por dois outros motivos: primeiro por ser o único ser humano do mundo que presenciou aquela sessão além do próprio Mailton, sem dúvida nenhuma um puta privilégio pra quem ama skate. E também pela parceria do Mailton, a confiança que ele depositou no meu trabalho quando decidiu se jogar no corrimão só pra fazer a foto, sem ninguém filmando. Com os anos, aprendi que esse tipo de parceria é essencial entre skatista e fotógrafo, a confiança e o respeito mútuo. É uma troca pessoal muito forte, que vai além de apertar o obturador ou bater o tail no chão.

 

Mailton_fsgrindday_img_1972 - 645px - by MugMailton dos Santos, vulgo Boca.

 

Obrigado, Boca, pela parceria de sempre. Sou seu fã pelas suas manobras, pela sua história de vida e pela pessoa que você é.

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