Jetlag - 16.10.2013 Anthony Van Engelen


Anthony Van Engelen, ou AVE, é um dos caras mais rasgadeiros do mundo. Piscinas, corrimãos, ditchs… Eu, pessoalmente, gosto muito do estilo dele. Recentemente, ele deu uma entrevista pra The Skateboard Mag, e nós achamos uma boa traduzir pra vocês. Tá aí.

 

Na entrevista de hoje, descubra quantas vezes a Alien Workshop foi comprada e vendida, aprenda a dar um nome bom pra sua empresa, descubra quando a bolha do skate vai estourar e se as grandes empresas que entraram no skate vieram pra ficar ou não.

 

introdução e tradução por Felipe Minozzi (Fel) / entrevista por Chris Nieratko – The Skateboard Mag

 

 

Como o Jason Dill te contou que estava saindo da Alien Workshop?

Há! Bom, eu não diria que foi tão simples assim. Mas, no começo, Jason veio com a ideia de que poderia sair. Andando por uma marca durante quinze anos, nós chegamos lentamente ao ponto em que não sabemos onde tudo vai dar, e a ideia de sair começa a parecer boa.

 

Foi a sua marca por quinze anos… Você e o Jason eram a cara da marca. Quais foram os motivos pra vocês saírem?

Uma empresa que existe há 24 anos tem seus altos e baixos, como qualquer negócio, e ainda mais uma empresa que lida com peças de skate. Eles foram forçados a tomar decisões difíceis em determinadas épocas e nós os apoiamos. Não culpo os caras pelas decisões que foram tomadas. Nós vimos a empresa ser comprada e vendida, e a gente ia pra lá e pra cá, sendo puxado junto até o ponto em que eu não sabia mais o que estava acontecendo. Eu só soube que a marca tinha sido comprada do (Rob) Dyrdek e vendida de volta depois que tudo aconteceu. Acho que o caso foi que, depois de 15 anos, nós éramos só os skatistas da marca. E onde eu vou estar em cinco ou dez anos?

 

Então era mais uma questão de andar com as próprias pernas, ter o seu negócio… Mais do que estar infeliz lá? Ou uma mistura das duas coisas?

Acho que foi uma mistura. Mas não tão simples como estar infeliz ou de precisar de algo próprio no futuro. Acho que eu estava preocupado com os próximos cinco ou dez anos da Workshop. Aí, é natural considerar fazer algo por conta própria. O skate é tudo que eu sei e com que estive envolvido. É assim que me vejo continuando envolvido.

 

Jason Dill e AVE. (divulgação Vans / Jeff Potocar)

 

Quando eu soube que o Rob estava comprando a Workshop, fiquei curioso com o que ele faria. Ele só faz coisas em escalas gigantescas, tudo o que ele toca tem sucesso. E a Alien, apesar de estar maior do que nunca, é, tradicionalmente, uma marca underground. Eu não sabia como isso ia funcionar. Como foi isso? Isso te influenciou a sair?

O que me fez sair foi o sentimento de não saber o que estava acontecendo com a marca. Com relação ao Rob, acho que ele tinha boas intenções ao comprar a Workshop. Andar por uma marca por 20 anos, conseguir virar a mesa e comprá-la foi algo que eu respeitei, mas também estava curioso sobre como isso de desdobraria, já que o Rob é ocupado com uma centena de outras coisas que o trazem milhões. E peças de skate são um negócio difícil atualmente. A marca, em um momento depois que ele comprou, foi vendida sem eu saber de nada, e depois comprada de volta por ele. Eu não tinha ideia de que isso tinha acontecido. Eu estava no escuro e comecei a sentir que ele tinha coisas mais importantes pra cuidar do que a Workshop.

 

Há alguma verdade no rumor de que uma das razões de vocês saírem da marca foi por causa de caras que vocês não suportam na equipe?

Não. Aquele time foi montado por nós, na maior parte. E qualquer mudança que a gente quisesse fazer, seria feita se nós ficássemos.

 

 

O mercado de peças de skate está uma bagunça agora, então eu te aplaudo por fazer isso. Mas quero saber quais são os objetivos da marca? O que é sucesso pra você? Porque é um negócio difícil atualmente.

Não sei o que é sucesso, mas acho importante que a gente faça algo completamente diferente do que há no skate hoje em dia.

 

A Supreme não é nossa dona. Sou eu e o Jason; é coisa pequena. Não temos um time de quinze pessoas, pra lançar quinze pro models de shape de merda, que não significam nada, a cada três meses. Parece que as pessoas estão jogando merda na parede pra ver o que gruda e fica, porque o skate agora é grande, os times são grandes, e toda a estrutura das marcas ficou grande. Agora tem um monte de navio no mar, todos tentando ficar na superfície. Eu sinto que o skate tinha muito mais a dizer, as artes tinham mais sentido, e agora parece feito nas coxas para as massas. Nós queremos fazer o contrário.

 

Você está comandando isso da sua garagem, no estilo Wu Tang?

Mais ou menos, mais ou menos.

 

É como há 20 anos. Eu me lembro do Jason Jessee ligando pra skateshop em que eu trabalhava pra vender shapes da Consolidated; eu achava épico. Você vai ligar pra lojas em pessoa?

Já liguei pras lojas, mas não pra vender. Nós só fizemos uma lista. Eu não estava tipo: “Ei, aqui é o AVE!”, mas fiz algumas perguntas porque nós não vamos vender pra qualquer um.

 

 

 

Da hora. Eu não recebi ligação nenhuma.

Como você sabe? Eu liguei pra loja, não pro seu celular. Mas é isso aí; à parte disso, estou andando diariamente. Estamos trabalhando. É uma operação improvisada, mas estamos fazendo.

 

Fucking Awesome como nome da marca? Você não quer nem tentar vender pro Joãozinho e sua mamãe, né?

Talvez, não sei. Eu lembro que, quando era criança, eu adorava comprar os shapes que vinham em sacolas pretas. Eram aqueles que eu queria. Então, talvez a gente queira… Vamos ver.

 

Porque escolher esse nome e continuar a marca do Jason, ao invés de começar algo totalmente novo?

Quando ele veio com a ideia de fazermos algo nosso e usar a marca como plataforma, pra mim pareceu perfeito. Ele vem fazendo isso há doze anos. Já existe uma plataforma, um nome, seguidores, e uma estética que vem junto com a Fucking Awesome. Mesmo se fizéssemos algo com outro nome, pareceria a mesma coisa. O Jason é a mente por trás das artes e do visual das coisas. Nós compartilhamos as mesmas ideias. Ele faz algo, e eu fico tipo: “Isso! Isso faz sentido pra mim.” Ou, às vezes, é algo completamente retardado que me faz rir, então tudo bem.

 

Reprodução offthewallsite.net

 

O timing de vocês saindo da Workshop foi bem estranho, junto com Alex Olson e Brian Anderson saindo da Girl. Houve até especulações sobre todos vocês fazerem algo juntos. Foi coincidência?

Foi, foi coincidência isso tudo acontecer ao mesmo tempo. Eu lembro de ver Brian em Nova York, e ele me falou sobre o primeiro passo pra sair da Girl e começar a parada dele, mas Jason e eu já falávamos de sair há alguns meses. Então, é… Foi coincidência tudo isso acontecer junto.

 

Como você contou pro Dyrdek, e qual foi a reação dele?

O Jason ligou pra ele, então eu não presenciei a primeira reação. Mas falei com ele no dia seguinte e ele nos desejou sorte. Nossa última conversa foi sobre a meta dele de manter a integridade da Workshop, seguindo a visão do Mike Hill, então acho que é isso que ele vai fazer pra continuar a marca. Acho que muita gente ficou tipo: “Oh, vai ter um time da Street League?”, ou então pensando que tudo ia acabar com a nossa saída, mas o fato é que eles ainda tem um grande time. Se ele investir nesse time, nesse ideal e ouvir os caras, pode ser foda.

 

É verdade que você saiu porque ele não deixou você entrar na Street League?

Exatamente! Foi isso. Ele não me deu uma fatia do contrato com a Lunchables.

 

Como você acha que se sairia na Street League?

Porra, mano. Dylan Rieder fica em quarto, então… Caralho! Eu ando com ele direto, e o rolê dele é brutal. Ele é um dos melhores skatistas do mundo e tá ficando em quarto lugar.

 

 

Você tá se empenhando pro vídeo da Vans. Tá andando todo dia como um garotinho. Como é que tá isso?

Sei lá. Só estou por aí fazendo o meu melhor. Eu, na minha idade, só estou tentando mostrar gratidão por tudo que tenho e por estar onde estou. É além do que eu sempre pensei, ainda poder fazer isso. Estou feliz de andar todo dia e ter a chance de dar o meu melhor. Mas tudo tem um lado ruim: quando você anda há tanto tempo quanto eu, o skate define quem você é e como você se sente. Quando não está dando tudo certo do meu jeito, é difícil manter uma visão positiva, ainda mais quando você vai de vídeo em vídeo, de manobra em manobra. Mas não importa, pois não estou sentado atrás de uma mesa, com uma corrente no pescoço. Skate é foda.

 

Qual o seu objetivo? Você quer superar o Mindfield (vídeo da Alien Workshop)?

Não. Quero fazer o meu melhor, hoje, em cima do skate. Não penso no Mindfield, se isso te responde. Eu levo a sério, mas só estou tentando curtir e andar um pouco diferente. Tem que mudar alguma coisa pra se manter interessante pra mim, sejam os picos ou as manobras. Então, quando eu dou uma manobra, sei que é aquilo que eu queria mandar.

 

Você tá filmando por aí, e eu já ouvi dizer que tem coisa bem foda já filmada. Quem vai apavorar?

O Chima (Ferguson) é foda. Eu não vi nem metade do que ele já fez, mas tudo que eu vi é de explodir a cabeça. O time é foda, cara! Gilbert (Crockett) é um retardado. Não sei o que acontece com ele; também tem muita coisa que nunca vi antes. Dan Lu, Kyle Walker, Pfanner… Todo mundo é bom demais e se puxa nas viagens; faz as paradas mais cabreiras. É coisa de louco.

 

 

Você mencionou o Gilbert. O Kevin Tarpening também saiu da Alien com você. Sei que tem caras lá que são próximos de você. É difícil se afastar deles? Eles ficaram pra trás na sua história ou você pretende trazê-los pra Fucking Awesome um dia?

Esse foi um dos maiores problemas ao sair: o time e a relação eu tenho com os caras. Eu pulei do penhasco… Não vamos mais estar na van, em tour com todos esses caras de novo, sabe? Isso foi difícil, com certeza. Foi foda ligar pra todo mundo e falar com cada um sobre isso. Mas também não queríamos criar a Alien p Workshop 2. Estamos andando por conta própria agora. Não queremos pegar um monte de gente e garantir um monte de coisa pra todo mundo. E também não estamos tentando desmanchar a Workshop. Obviamente, nós colocamos todos esses caras na marca, nós amamos eles, queríamos poder estar juntos, mas até agora tá tudo bem. Eu ainda viajo com o Gilbert. Ainda ando com o John Fitzgerald direto na pista ou em viagens da Vans. Ainda falo com os caras e tá suave, não ficou nada estranho entre ninguém.

 

Como você acha que vai ser a parte do seu sócio pro vídeo da Vans?

Ele está filmando com a Supreme há não sei quanto tempo, e a prioridade dele é essa. Mas ele tem imagens de quando estávamos viajando direto, há um ano, um ano e meio. Quando ele acabar de filmar com a Supreme, vai pras viagens da Vans de novo. Mas ele tá andando todo dia e apavorando.

 

 

Eu já te disse que precisei fechar outra skateshop. Tem uma bolha no mercado do skate, e vai estourar. E acho que as marcas pequenas, tipo a Fucking Awesome, vão se dar bem por não ter tanto coisa a perder. Acho que os pequenos vão crescer e os grandes vão cair. Como você acha que está a indústria do skate?

Eu concordo com você; já estamos vendo isso. Acho que vão surgir empresas pequenas destronando as grandes, e essa vai ser a nova parada, porque é mais fácil comandar operações pequemas. Já ouvi um monte de gente dizendo que vamos entrar de novo em uma espécie de “anos 90”, no que diz respeito aos negócios. Concordo com isso em partes, mas quem sabe o que o futuro vai trazer? Eu, com certeza, não sou analista de negócios. Mas, como skatista, eu sinto que vem grandes mudanças por aí e, se a merda acontecer mesmo, espero que Dyrdek pegue o que sobrar do seu dinheiro e construa uma réplica do EMB (pico), pra gente andar lá até morrer.

 

Na sua opinião, qual a causa de tudo isso? O Rodney Smith, da Shut (marca) sempre diz: “Mesmo que você cresça muito, não se empolgue”.  E eu acho que o skate acabou se empolgando muito.

Geralmente, o dinheiro tem a ver com isso. Parece que o dinheiro foi o culpado nesse caso; geralmente, ele é a raiz dos problemas. Mas sim, se empolgaram. As pessoas se empolgaram. Não vou sentar aqui pra te falar que sei de coisas que outras pessoas não sabem. Tem gente muito mais inteligente que eu nos negócios, mas às vezes você acaba em um lugar e fica tipo: “Como eu vim parar aqui?”.

 

Tem muito dinheiro de fora no skate. Eu odeio uma parte disso, mas também gosto de ver meus amigos sendo bem pagos. Você acha que, quando essa bolha estourar e todas as marcas grandes pularem fora, o skate vai ficar na merda?

Parece que essas empresas grandes vieram pra ficar. Algumas já fizeram as malas e saíram de novo; nós vimos isso com a Analog, Gravis, Bruton, Quiksilver e por aí vai. Mas parece que a Nike, Street League, ESPN, os energéticos e etc. estão colocando cada vez mais dinheiro no skate, e mais empresas continuam entrando no jogo. Então, acho que o skate não vai voltar totalmente ao que era nos anos 90, quando não havia absolutamente nenhum dinheiro de fora. Talvez nós vejamos uma ESPN Skateboards em breve, ou um time da Street League com uniformes de couro. Quem sabe? Está tudo muito louco agora.

 

 

Está se preparando para as Olimpíadas?

É, tenho certeza que isso passa pela cabeça deles: “Como nós podemos criar um ranking de skatistas pra colocá-los nas Olimpíadas e nas caixas de cereal?”. Como você disse, tem amigos meus andando pela Nike e vivendo bem. Eu ando pra Vans. Eu sei pra quem eu ando. Eu sei quem é o dono. Eu tive uma boa vida por causa disso. Eu concordo com você, quando diz que esses caras se jogam escada abaixo dia após dia após dia, agregando valor aos produtos que usam, e merecem ganhar bem por isso.

 

Estou prestes a operar meu pé; vai ser daqui a quatro semanas. Minha terceira cirurgia. Já cansei de tomar cortisona nesse pé pra filmar a minha parte, mas foda-se. Estou feliz em doar meu corpo pelo skateboard, porque é o que eu amo fazer. Fico feliz de poder me machucar todo aos 34 anos, entrar numa banheira de gelo e mancar até o banheiro de madrugada pra mijar. Sou totalmente grato por isso. Acho que a alma do skate sempre vai voltar, e já estamos vendo isso. Acho que tem garotos por aí atraídos pelo skate pelos mesmos motivos que eu fui. É disso que eu falo quando digo “a alma do skate”. Acho que isso existe e andar de skate é uma coisa pura. Seu olhar sobre como você quer andar é tudo que importa, é pra você. Isso nunca vai mudar, não importa quais empresas cheguem ou saiam.

 

 

entrevista por Chris Nieratko – The Skateboard Mag

introdução e tradução por Felipe Minozzi (Fel)

Artigo original

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